05 Fevereiro 2012

Maria Luiza, cheia de graça.


Minha mãe era uma pessoa que se esforçava. Às vezes sentava na minha cama e se punha a fazer milhares de perguntas, fingindo um interesse, querendo mostrar que cada palavra que saía da minha boca eram as mais valiosas do mundo. Um dos elogios que ela fazia, nestes momentos, era exaltar a qualidade da minha escrita – e é com ela que eu vou prestar a homenagem que, por vezes, achei que fosse antecipar e que infelizmente chegou.

Taurina, corinthiana, nascida no Brás e criada na Mooca – como gostava de enfatizar. Era uma mulher que se apegava a qualquer crença pela qual se beneficiasse. Seguiu todos os dogmas possíveis. Foi à igreja de joelhos, conversou com o pastor, tomou um passe, incorporou a cigana. Era bairrista também: de todos os amores, aventuras, desejos – todos, numa mínima exceção, eram mooquenses. Ela sempre dizia, cheia de orgulho: não moro em São Paulo, eu moro na Mooca! E ali, nos gloriosos títulos brasileiros de 1998 e 1999, lá estava ela para puxar o "Poropopó, Corinthians veio pra vencer".
Amou muito também. Com intensidade e diversidade. Minha mãe foi aquela que viveu tanto que os anos foram correndo de forma tão rápida que o fim chegou cedo: cinquenta e dois anos, de puro cigarrinho na mão, pigarro, palavrões, vida escancarada e a incansável vontade de ser compreendida. E eu, por criticá-la e talvez por ser igual ou pior, entendia tudo, em silêncio, desabando por dentro, querendo dizer: “Ó, controle suas emoções, eu to aqui”. E todos estavam. Os filhos, os pais, a nora, a vizinha. Maria Luiza se tornou uma luta pela qual todos batalharam.
Em alguns momentos, quando o pensamento corria pela minha mãe, eu temia não chorar em seu velório. Quando ele aconteceu, mal consegui falar. Foi como se todos os males tivessem sido esquecidos e a mãe que chegava orgulhosa da reunião de pais, segurando o boletim do caçula, tivesse encarnado em mim. A mãe que me esperava fazer as provas da escola técnica, em todas as milhares de tentativas; a que, com naturalidade, passou a falar comigo sobre a vida multicolorida, que me cobrava para ir aos lugares, conhecer minha realidade, minhas paixões.

Minha mãe ficará eternizada em mim porque não existiu melhor exemplo a ser seguido. Por ela – só por ela –, eu conquistei cada subida de degrau nessa vida que, a meu ver, não é nada fácil. Por ela, eu brigava por décimos na escola, para fazê-la feliz na reunião de pais, ter um motivo para se orgulhar. Por ela, eu comecei a trabalhar cedo, garantindo o mínimo possível de responsabilidade sobre meu sustento. Por ela, eu me tornei o filho graduado, o primeiro dos netos da Dona Anita, o que foi, por muitas vezes, deixado de lado, por ser filho dela, por ser o segundo filho sem pai, por ser o filho com trejeitos que não competiam aos convites litorâneos. E ela, por não ter conquistado nada e, mesmo assim, ter batido o pé por suas vontades, foi o exemplo que eu segui, por ir à contramão.
Hoje eu sei, apesar de recente, o que é sentir a saudade mais dolorosa, a dor mais pontiaguda, o respirar mais ofegante. Eu perdi, pelo menos fisicamente, meu maior desafio – mas a minha pimentinha, que cantava de forma doce “O Bêbado e o Equilibrista”, tinha de cessar o furacão que foi sua passagem por aqui.
Eu te amo.



"(...) sabe que o show de todo artista tem de continuar".

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