"(...) De resto, se às vezes posso sofrer por não possuir certas coisas que ainda não conheço inteiramente, a verdade é que, descendo-me melhor, logo averiguo isto: Meu Deus, se as tivera, ainda maior seria a minha dor, o meu tédio." (Mário de Sá-Carneiro)
Comecei a semana dopado de uma injeção e me senti flutuando sobre a selva de pedra, até despencar sobre o colchão e acordar no começo da noite, ainda zonzo. Por esses dias, folheei o caderno do convênio médico. Eu, que nunca acreditei em saúde mental, por achar uma grande picaretagem de gente que aproveita da carência alheia, fui passando os dedos pelos terapeutas listados.
Disseram que, vendo pelo lado bom, eu não sou tão lunático, pois reconheço o problema – só não sei como resolvê-lo. Consigo desmontar a felicidade de um sorriso só em pensar na possibilidade daquilo que já aconteceu. Dói, de uma forma gritante, sentir o zunido da conversa que eu estabeleço na cabeça entre as duas partes – o traidor e o traidor -, ambos muito à vontade em se deliciar a si próprios, rindo do meu ciúme negritado.
Não lembro, ao certo, quando me tornei dependente da minha dependência – que acarreta, inclusive, na repetição de atos e palavras; que atrapalha a minha concentração em todos os momentos em que é remetida. Acho degradante falar em direitos, quando, na verdade, não exerço nenhum – nenhum, sobre ninguém. Mas sei que não quero mais do que um egoísmo acatado, sem seguir a regra alheia, somente mantendo a beleza dos meus momentos intacta.
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