Eu conheci, no alto dos meus vinte e dois anos, uma infinidade de pessoas, de todos os tipos – assim como o sambista da Vila conheceu mulheres de várias idades e muitos amores. Todas estas pessoas têm uma lembrança que eu guardo comigo e, por isso, com o coração apertado, decidi falar de uma delas.
Quando eu o vi pela primeira vez, lá do alto, em uma sacada, você olhou para mim e disse: “Cuida bem dela”. Não sei ao certo porque lembro tão nitidamente deste dia, mas talvez seja porque a partir daquele momento, eu nunca mais deixei de me sentir responsável por uma das minhas melhores amigas, a quem já dividiu cama e carinho comigo.
Eu, que nasci sem pai e pouco me reconheço em situações como filho, nunca me esqueço do dia em que você, em uma feira, ao cumprimentar o feirante, disse: “Meu filho”. E ali, embaixo do sol, com a sua filha de verdade ao lado, senti o gostinho daquilo que nunca havia vivido, que nunca tinha me sido ofertado. Por isso, sempre te respeitei e confiei no que, para mim, sempre foi sua vocação: ser pai e ser especial até para aqueles a quem, imagino eu, você nunca suporia – para mim.
Meu coração está apertado porque é difícil expressar o penar que eu tenho em nunca ter lhe dito o quanto aquele momento foi marcante para mim, o quanto me fez feliz ao me proporcionar a sensação a qual eu nunca havia sentido. Aonde quer que você vá, aonde quer que esteja, para mim, vai ser sempre ímpar, sempre especial e, como um bom pai, vai aceitar de bom grado que a retribuição de todo o carinho que eu sinto por você seja dada aos seus frutos.
1 comentários:
Roberto, descobri seu blog, por acaso, às quatro da manhã de uma quarta-feira gélida. Não sei se o sono da cidade e a temperatura contribuíram para tamanho arrebatamento, mas penetrei surdamente no reino de suas palavras e, por lá, fiquei preso. E quando então o primeiro raio de sol, na janela, me expulsou da evasiva, percebi que o tempo me havia escapado de uma maneira, eu diria, agradável.
Sua escrita é apaixonante. Parabéns.
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