10 Junho 2011

Migrante.

Como há muito não acontecia, um conto.


Pouco mais de oito horas da noite. O metrô da avenida Paulista abarrotado de gente e eu, na plataforma, com o Leite Derramado na mão, procurei um tiquinho de espaço para me encaixar.

Uma, duas, três estações, a voz gravada antecipando o nome da parada e eu já sentado, fixo nas páginas cor creme do livro do Chico, ouvi um mastigar específico, com croques dos dentes e um barulhinho de sacola plástica de supermercado. Logo ali, na minha frente, uma senhora de pouco mais de cinquenta anos, cabelos crespos, corpo rechonchudo – assim como nariz –, pele furada e morena de nascença. Os olhos baixos, cansados e cheiro de limpeza-alvejante-da-dona-da-casa empesteando o vagão.

Voltei ao livro e li dez páginas, folheei, folheei, mudei de capítulo, mudei de enredo, mudei de foco. Pensei na chegada daquela mulher à cidade, malas na mão, rodoviário do Tietê, fichas telefônicas e a prima distante dizendo: “Ô, mulher, até que enfim chegaste. Se prepara que a viagem ainda é longa”. E foi. Pelo Belém que não é do Pará, passou pelo tatu que anda a pé e por todas as mulheres que enfeitaram os nomes nas vilas, tal qual Matilde. E ali, naquele fim de mundo tão almejado no sertão do país, a dona pousava na pedra dura, no extremo da cidade e se instalava no quartinho pequeno do conjunto habitacional. Conheceu uma série de rapazes, todos atentos ao fervor soteropolitano daquelas curvas que passou por diversos mandatos e, assim como as vias, mudou o traço – tornando o côncavo em convexo.

E então, quando os olhos voltaram a ela, já não havia ninguém no banco. Voltei todas as páginas do livro, pois pouco tinha entendido da leitura. Talvez não. Podia ser que aquela história toda da moça retirante era parte de um capítulo em especial. Os capítulos anteriormente lidos, com palacetes cariocas ou senhores de engenho que engravidavam as mucamas, deram lugar à cidade das oportunidades, dos sonhos grandiosos que contemplam a geografia da terceira maior do mundo. Mas ao passar os olhos pelas páginas, vi que eu estava enganado.

Na minha frente, agora, havia uma porção de jovens, em uma rodinha, com casacos de tectel e pelinhos no capuz. As meninas com cabelo louro oxigenado, pele oleosa e uma franja pega-rapaz. Gargalhavam alto sobre o dia no call center, da moça que ligou desesperada, dizendo que não conseguia acessar à internet. Era o modem que estava desligado, pois, assim como na vida, nem todas a luzes piscam de acordo com o que pretendíamos e não há suporte que diga quando devemos parar de acreditar.

4 comentários:

Gui disse...

Adorei seu blog, parabéns! Vou passar por aqui de agora em diante.

Gui disse...

To lendo td hahahahahaha. Muito bom!

king of Clubs disse...

te vi no metro..com essasua cara de bobo.=)

Getulio Rodoli disse...

Um texto com simples elementos de identificação e ricos detalhes. Saboroso. Parabéns.

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