14 Abril 2011

Menino das Letras.

Caminhando frente ao hotel na avenida Brigadeiro Luís Antônio, recém pisado na calçada – recém saído do ônibus laranja – refutei minha própria escolha em ter estudado Letras. Já ouvi, de boca pequena, que a escolha se deu porque “o curso não tem Matemática”. Discordo: acho análise sintática tão operacional quanto a fórmula de Bhaskara.
Sempre gostei de corrigir as pessoas. Não pessoalmente, nem pelas costas, mas por dentro. Por tal motivo, acreditando neste prazer, ingressei ao curso com o foco editorial: queria revisar. Assim, o primeiro estágio como estudante de Letras foi, então, em uma editora. Eu ficava quatro horas diárias, do início da manhã à hora do almoço, com a ponta do lápis trêmula, sintoma da busca pela falha absurda, daquelas que jamais seriam cometidas por estudantes primários. Às vezes, porém, acontecia – e eu, no meu entusiasmo, guardava o erro na cabeça para uma conversa posterior em sala de aula e, em seguida, enterrava a ponta da caneta marca-texto, anunciando, então, o terrível erro ortográfico causado pelo professor-doutor, autor de não sei quantos livros e outros tralalás.
Entretanto, nesta mesma época, fui fisgado pelo viés da Educação do curso. À medida que eu revisava na editora, a faculdade me cobrava cada vez mais talentos didáticos, abordagens pedagógicas nas mais diversas situações. Não digo que sou facilmente influenciável, mas sob o olhar de Paulo Freire e Bourdieu, rendi-me à Educação, e as sádicas correções viraram vontade de ensinar.
A sala de aula, a princípio, não me apetece. Busquei um caminho alternativo, porém, com pouca geografia. Poderia falar da minha paixão pela educação a distãncia, mas não quero quebrar a estética do texto. Alguns resquícios da roupagem caxias do estudante de Letras ainda permanecem em mim.

(...) a má literatura é a literatura em estado puro, intocada por distrações como estilo, invenção, graça ou significado, reduzida apenas ao ímpeto de escrever, à magnífica compulsão. (...) Todos nós merecíamos pertencer à irmandade dos que escrevem, só por querer.”
(VERÍSSIMO, Luis Fernando. Os espiões. Rio de Janeiro. Objetiva: 2009 – p.84)

2 comentários:

Anônimo disse...

Gosto de me surpreender quando navego pela internet e seus textos tem sido das surpresas mais agradáveis que encontrei em muito tempo. Parabéns!! Espero poder te conhecer (melhor) pessoalmente qualquer dia desses!

Ricardo disse...

É! Tentei, mas não dá.

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