01 Abril 2011

Eu não apanhei.

Um dia – calculo que tenha sido em meados de julho de 1988 –, minha mãe e meu pai transaram. Diferente das vezes anteriores, um espermatozoide fujão resolver utilizar uma via alternativa. Nove meses depois, no dia oito de março de 1989 – dia da mulher –, eu nasci.

Durante toda a minha infância, eu percebi que alguma coisa estava diferente. Minha mãe não havia me dito nada, assim como meus avós, meus primos ou meu irmão. Eu, desde criança, presenciava atitudes em mim que estavam além da minha força de vontade – o que mais tarde vim a descobrir se chamar instinto. Apesar do aparente clichê, eu queria coisas que, perante o lar e a sociedade, eu não poderia expor. Eu nunca invejei os brinquedos do meu irmão, mas cheguei a sentir frio na barriga caso um dia eu também ganhasse uma casa da Turma da Mônica. Quando estas vontades, por sua vez, passaram a ficar cada vez mais nítidas aos olhos da família, inventaram que algo precisava ser feito.

Ser criança e carregar um fardo de rejeição não é fácil, mas não é impossível. Os bombardeios, muitas vezes na escola, não poderiam ser contados na mesa do jantar, pois certamente os olhos da negação, sob uma fictícia luz de neon, escreveriam: mude. Não consegui e, por um tempo, senti-me covarde por isso. O tempo trouxe amadurecimento e, para tanto, passei a aceitar minha condição à proporção de que ela não precisava de respostas. Como Gabriela, eu nasci assim.

Hoje eu tenho vinte e dois anos. Sou formado e tenho um emprego. Eu não posso casar com a pessoa que eu amo. Não posso, também, pelas mesmas vias que o meu vizinho, por exemplo, adotar uma criança. Caso eu queira lamentar todas estas limitações, andando sozinho em alguma via da cidade, corro o perigo de algumas crianças me atacarem pedras, lâmpadas, ferro ou facas, fazendo parte de uma porcentagem injustiçada, que certamente não escolheu sofrer tanto revés aos seus direitos.

Com agressões frequentes e opiniões que fogem à desculpa da democracia, penso incessantemente em quem posso contar – e sei: com as seis cores do meu orgulho, que, apesar dos pesares, não me nega um sorriso, uma esperança.

6 comentários:

Lets disse...

É muito fácil e de graça amar quem você é! S2

Fa_azam disse...

lindo

Alexandre disse...

lindooooo

king of Clubs disse...

voce pode casar sim;comigo;seu bobo

Leticia Amoroso disse...

Te admiro muito!

| rickgaldino disse...

Excelente e ... Humano

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