Um dia, quando eu era um pequeno ponto luminoso frente aos grandes faróis da minha casa, senti que havia algo diferente em mim. Uma recaída pelo galã que passava na televisão. Rosto quadrado, barba por fazer, sobrancelhas grossas e uma voz grave. Ali, no ápice da infância, estava eu desejando algo surreal para tal faixa etária.
Dividi com Ele todos os meus desejos e, por isso, vivi a intensidade do medo dos dedos apontados a mim – e não foram poucos. Evitar passeios coletivos, andar pelos corredores sozinho, fingir de morto em aniversários, massagear a voz – sozinho – para parecer mais convincente. Porém, depois do primeiro “sim”, as coisas começaram a desembestar, como um efeito dominó. Vieram os primeiros amigos do gênero, as memoráveis tardes de sábado nas alamedas dos Jardins, compreensões familiares, novos laços e um mundo que sempre esteve à parte me esperando.
Os parceiros, por sua vez, também vieram e numa diversidade talvez nunca vista. Como homem, não no sentido de honrar as palavras e batalhar cada segundo da vida, mas como aquele que titubeia perante a carne, conheci um pequeno ponto luminoso, cujos anseios se assemelham aos meus anos atrás, mesmo com uma idade maior – e, infelizmente, com um atrativo maior: uma aliança.
Percorrendo os pensamentos, vem uma sensação do regresso das conquistas, posto que eu esteja voltando para onde ousei, como pessoa, sair. É difícil pensar que a sogra dele não é a minha mãe e que, neste triângulo, nem todos frequentariam o mesmo banheiro.
1 comentários:
Eu simplesmente gosto dos teus textos com a mesma intensidade que gosto de você: MUITO!
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