Este texto faz parte das considerações finais do meu Trabalho de Conclusão de Curso, da Universidade Anhembi Morumbi, Letras - 2010
A Rua Iramaia é uma ruela de apenas um quarteirão e desemboca na Avenida Brigadeiro Faria Lima, um dos principais centros econômicos da cidade de São Paulo. A rua, ao contrário da avenida, nunca foi citada, por meio de pesquisa, em um jornal de grande circulação no país, mas faz parte de um emaranhado de outras ruas que compõem a extensa e larga avenida. São Paulo reflete sua história em suas vias. A cidade que amargurou o esquecimento do país por séculos, tornou-se o coração econômico da nação, impulsionando o movimento migratório de milhares de pessoas para seu território. São Paulo, que um dia já foi a Rua Iramaia, figura, hoje, como a Faria Lima – uma cidade em que passado e presente se cruzam, assim como as vias em questão.
Tal comparação, porém, não seria possível caso o estudo dos primeiros momentos do urbanismo não tivessem sido abordados ao longo desta monografia, embasando parte da análise em questões da pré-história, de organizações mantidas até os dias de hoje. A cidade passou por diversas transformações e seu espaço foi se configurando de acordo com as ações do homem. No entanto, estas ações, vistas no capítulo de introdução à fundamentação teórica, mudaram em reflexo às novas formas que a cidade tomou. O habitante passou a se deslocar de acordo com as especificidades do espaço que o sediava, ao tempo que tal adaptação impulsionou formas alternativas de organização. Desta forma, assim como o homem evoluiu e se transformou ao longo dos séculos – desde a pré-história –, a cidade trilhou um caminho paralelo, moldando-se e sendo moldada.
Estas transformações adquiriram força sob a ótica das obras literárias ambientadas na cidade, como nas analisadas Macunaíma e Pela Noite. A sedução de São Paulo com os habitantes, bem como – na visão da literatura – do personagem, é efeito da cidade multifacetada que abriga pedaços do mundo inteiro. Viver na capital paulista significa esbarrar, desencontrar, ouvir pessoas falando inglês, espanhol, francês e o português carregado de sotaques dos outros Estados brasileiros. São Paulo produz máquinas, mas não só o faz, assim como o céu sujo não mancha a alma de todos, pois esta cidade proporciona Liberdade, abriga o Paraíso, garante Saúde, dá Luz e oferece Consolação.
As multidões estão em toda parte, mas assim como o espaço urbano, vivem constantes modificações. Em um intervalo de alamedas, vê-se a Avenida Paulista como um formigueiro de engravatados nas calçadas e o trânsito caótico de quem entre e sai dos prédios comerciais; na Rua Oscar Freire, uma porção de mulheres e fashionistas garimpam as novidades da moda ao redor do mundo nas butiques de luxo – mas a Louis Vuitton aparece em outro bairro também. Na Rua Oriente, sediada no bairro acentuadamente industrial do Brás, uma porção de imigrantes latinos oferecem produtos made in e tornam a via praticamente intransitável, formando uma multidão de pessoas que transbordam da calçada.
São Paulo não é Nova Iorque, mas custa a dormir. Entrei na Rua Augusta a 120 por hora; toquei a turma toda do passeio pra fora, disse Raul Seixas. Esta via, que atravessa a Avenida Paulista, representa o cruzamento entre o trabalho durante o dia e o trabalho durante a noite. Boates, cinemas, restaurantes, botecos, carros parados, mulheres negociando, rockers, rappers, clubbers e a multidão noturna que se entrelaça ao entretenimento daqueles que sabem o que querem e onde procurar. Macunaíma se entreteve com as cunhãs; Pérsio e Santiago buscavam um bom lugar para jantar – em um intervalo de mais de sessenta anos, São Paulo mudou, mas manteve sua essência.
Entornando este texto para um viés experiencial próprio, acredito que os estudos de Osman Lins sobre ambientação aplicam-se tanto na esfera literária quanto nas vivências como paulistano. São nos dias nublados que o guarda-chuva se esquece em cima da escrivaninha e a tomada de consciência de tal esquecimento acarreta em um fluxo maior de pessoas no metrô exatamente naquele dia que precisamos chegar mais cedo ao trabalho. Um objeto muda todo o curso do dia quando se trata de São Paulo, ações que estão vinculadas, inclusive, no caótico trânsito da cidade – se errou a rua, tenha paciência, pois nem sempre você poderá virar na próxima. Se Baudelaire, sob a ótica de Walter Benjamin, gostaria de ser um esgrimista para afastar a multidão, certamente ele seria derrotado no fluxo de pessoas que vêm e vão pelas calçadas da Avenida Engenheiro Luis Carlos Berrini ou pior, pois seria sumariamente pisoteado onde nem os carros conseguem passar: Rua 25 de Março – confirmando, pelo nome da via, a característica zodiacal de que os arianos são empreendedores.
Decerto, o paulistano não poderia fazer um passeio turístico de bote no Rio Tietê, assim como se faz em Veneza, na Itália. São Paulo não é a cidade maravilhosa, mas foi e continua sendo fruto do resultado das ações do homem – este que vive cada pedacinho da cidade em paralelo a cada construção. Portanto, em uma cidade como São Paulo, cuja transformação é constante, as considerações finais se tornam apenas conclusões temporárias de um espaço que não para nunca.