07 Novembro 2010

Vem cá, Luiza.

Tua beleza era tão perceptível que, mesmo aos nove, eu me incomodava com os elogios do proletariado vezenquando na hora do almoço. Você se contorcia, sentia-se valorizada pelo bando de homem rústico que destilava a lascívia da "dona-casada-com-cintura-de-pilão". Você era linda, ainda mais, quando me colocou nos braços e me batizou. Camisa branca, calça azul, cabelo Chanel, argolas nas orelhas. Bem acredito na história em que você correu do padre Mário na sacristia. Mulher bonita que o santo estremece.

Tua preocupação era irritante. Não podia ir à padaria, somente quando conviesse. Ao mercado, à doceria, ao açougue, ao inferno – somente quando conviesse. Horas e horas sentada à cama, com um pratinho na mão, mudando de canal e coçando os pés. Às vezes, quando dava, decidia ir trabalhar. Surtos que duravam algumas semanas e olhe lá. Um dia, a princesa foi destronada e me levou embora do reino, aos 18 anos.

Tuas verdades são tão falsas que Gepeto poderia ser seu pai. Mas te colocar em uma fábula não caberia também. Você é muito contemporânea, a filha moderninha, mais velha, que mascava chicletes aos 15 anos e colocava o pé na parede para ser da moda. Nesta idade, deu o primeiro beijo e, algum tempo depois, mais crescidinha, apanhou do pai porque foi à festa do Juventus, em um carnaval, vestida de coelhinha da Playboy. Conta esta história com orgulho.

Triste é falar de você como se não estivesse entre nós. Está, mas não está presente como mãe, só como Luiza, das promessas não cumpridas, das mentiras que você acredita. E eu, pobre de mim, estou aqui, ausente, corroendo todas as lembranças porque "eu sei que embaixo desta neve mora um coração".


3 comentários:

Luciano "Pava" Borges disse...

Ahhh moleque...não faz o tio chorar essa hora da manhã. =(

Roberta disse...

Querido, meu pai costuma dizer que família não se escolhe, é a que temos e ponto!
Mas alivia o coração pensar que não temos como mudar o outro e o que podemos fazer é aceitá-lo, seja como for.
Beijocas,

Leticia disse...

"Ao mercado, à doceria, ao açougue, ao inferno – somente quando conviesse."

Revelando então os sete mil amores....

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