14 Novembro 2010

Memórias.

Folheei a folha da agenda para os dias seguintes. Mudei de ano. Passaram-se mil, dois mil dias. Lá estava eu, vestindo um smoking novíssimo, muito bem escolhido por Natália Esteves, que, cordialmente, largou os negócios da moda por algumas horinhas e me ajudou a ser um padrinho elegante. Eu parecia a noiva, os olhos fundos de insônia, da noite mal dormida, por saber que logo menos estaria no altar, aguardando Deborah.

No chá de cozinha, alguns dias antes da cerimônia, Letícia, Patrícia, Natália, Vivian e Catarina – nossas amigas –, comentavam o quanto aquela data estava fora dos planos. Muito independente, a noiva jamais cogitaria se casar, mas assim o faria. Em uma das viagens, fora laçada e, por consequência, carregava no ventre o fruto do inesperado. Agora, aguardando pela noiva no altar, como padrinho, tirei um pequeno espelho do bolso e olhei o reflexo do tempo. Uma voz grave interrompeu as lembranças: "Está bonito, Roberto. O tempo não passou para você". Mas o tempo passou, sim. Passaram-se quase cinco anos e uma pilha de contas divididas a dois, assim como a cama.

A meu lado, Letícia segurava a emoção. Cantarolava baixinho um samba-canção. Patrícia, Catarina e Vivian seguravam suas respectivas crianças, enquanto Natália ajustava o vestido, por ela desenhado, em Deborah. Pouco tempo depois, com a estilista sentada na primeira fileira, a banda começou a tocar Sympathy for the Devil – a noiva, muito agnóstica, dispensou a igreja e a marcha nupcial, optando por uma produção independente. Estava muito bonita, usando um vestido decotado e, apesar dos poucos meses, com uma pequena saliência na barriga.

Algumas horas depois, na recepção, uma mesa redonda contemplava os antigos amigos. Formados, mãe, pai, tio, tia, padrinho, madrinha. Algumas crianças corriam pelo salão. O tempo voando entre as conversas, o bolo cortado com quatro mãos, o buquê caindo na mãe de alguém. O cansaço em mim era visível. Precisava voltar para casa, deitar, sorrir com o assovio do silêncio. Os olhos já estavam baixos, já estava quase me despedindo, mas ouvi Catarina, de longe, acenando com um cartãozinho. Sorri. Era um cartão de aniversário do pequeno Lindenberg, cuja beleza se assemelhava à da mãe.

Enquanto ele dirigia, peguei minha agenda caída embaixo do banco. Coloquei o cartão na página da festa. Folheei as páginas para trás. Senti os olhos mudando, assim como a pele, a cor dos cabelos. A meu lado, não havia ninguém. A poltrona não era poltrona, nem carro era carro. Era o tempo presente. As paredes gastas voltaram a aparecer, assim como o sofrimento de quem se sente só.

5 comentários:

patriciale disse...

Deduzo que se meu futuro se resume a crianças, eu estou casada pra ter um pai para elas, e eu tenho uma carreira para sustentá-las, então é um futuro feliz e espero que sua projeção esteja certa!

E Caju, para de besteira, claro que você vai casar.. é cada uma! ;)

Mas o mais legal do texto é ver que estaremos todos juntos ainda daqui uns 5 anos, tantas coisas já terão passados que dá até uma tristeza pensar..

Perae! Eu não quero filhos em 5 anos...

Amo vocês (L)

Leticia Amoroso disse...

Gostei muito. Concordo com a Nana: o mais bonito é estarmos juntos. Eu acredito.
Amo vocês

Ana Paula disse...

Beto!
Mais uma vez você foi genial.
Admiro muito as suas "memórias".
Beijos!

Club Lilás disse...

Talvez o comentário mais inesperado fosse o meu, mas as lágrimas que saíram dos meus olhos, não.
Nós dois sabemos como estamos e eu posso estar falando só por mim, mas eu acredito muito nisso tudo o que você escreveu!!
Nem hoje, nem ontem, nem 2 meses atrás ou até anos eu conseguia imaginar o aniversário de um futuro Lindenberg sem você presente.

O futuro Lindenberg tem que ter uma vida com você presente, assim como eu tive. Assim como eu ainda espero ter.

Eu te amo e você sabe.
Cat

king of Clubs disse...

Também amo voce e voce sabe.
Bobo.

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