16 Dezembro 2008

Ser feliz e passar bem - Final

Ela viu cada fio de luz atravessar as paredes quando abriu a porta do quarto escuro em que se encontrava. Estava renovada e sem rancor. Queria amigos e momentos de volta, montar um álbum interno, cheio de bons momentos. Sem paixões, sem traições.

Entretanto, quando se vive num mundo intenso, com um céu cinza, qualquer boa forma de demonstrar, qualquer atitude que não seja monocromática passa a ser recebida de forma afetuosa. E foi aí que ela, mais uma vez, pecou.

Não imaginava, porém, que seria novamente no mesmo lugar e no mesmo erro. Conforme as atitudes dele iam sendo cada vez mais atenciosas, mais ela retribuía. Em menos de uma semana, ela suspirava seu nome por todos os cantos. Era tão recente, mas tão verdadeiro que só poderia ser mentira. E era.

Quando pensou que passaria mais um fim de semana ao seu lado, ele já não estava na mesma forma de ser e assim, trocou-a pelo medo de não se envolver. Ele não queria uma vida a dois e agradar era apenas um artifício para levar para a cama. Coisa que ela já sabia de romances anteriores, mas desta vez, entendeu tarde demais.

Seria um bom motivo para voltar à singularidade, entretanto, levou o tempo necessário para superar e perceber que nem todo homem que abre a porta do carro é para casar. O orgasmo é, sem sombra de dúvidas, o clímax de um relacionamento mal estruturado desde seu início.

Então, que seja e sirva para ter um mínimo de prazer.



“Amar é ser fiel a quem nos trai.”

(Nelson Rodrigues)

15 Dezembro 2008

Ser feliz e passar bem - Parte II

A princípio, era mais um fim de semana que se iniciava numa noite de sexta-feira. E por mais descrente que ela estava, não conteve suas energias para tentar aproveitar ao máximo o que a madrugada lhe reservaria. Bastou uma troca de olhares para ela ter certeza que seria naqueles braços que ela se entregaria.

Sentiu a primeira sensação logo nos primeiros minutos, quando ele pediu para que ela ficasse um pouco mais. Sentiu-se desejada e se fez de difícil. Foi embora deixando ali a vontade de recomeçar.

Porém, como em todas as outras vezes, não conseguiu esconder o que estava se passando e assim, em um curto espaço de tempo, já declarava o que estava sentindo por ele. Houve um susto de ambas as partes. Ele não se sentia confortável com a velocidade. Ela, cada vez mais envolvida pelas palavras dele, ia se afundando num mundo que ela mesmo criava.

E com as incertezas de ser, ela decidiu ser mais independente e demonstrar de uma forma agressiva. Bateu pé, gritou, disse o que queria e num piscar de olhos, ela já o tinha perdido. E neste caso, a perda foi para alguém muito mais próximo que ela imaginava.

Viveu, então, um dos períodos mais escuros da sua vida. Um caminho cheio de lamentações e rancor. Não queria sair, não queria ver os amigos. Estava completamente apaixonada por alguém que já não se apetecia com sua presença. Ao mesmo tempo, um ódio era adquirido em seu círculo, ela queria vingança, queria matar, queria destruir.

O tempo em que ficou reclusa lhe proporcionou coisas que talvez ela não imaginasse. Neutralizou cada pedacinho dos sentimentos ruins que entornavam seu coração. Encheu sua essência de luz e assim, isentou-se de qualquer sentimento que estivesse próximo da paixão. Achou que conseguiria facilmente manter aquele quadro, mas ela se conhecia muito mais do que imaginavam.

12 Dezembro 2008

Ser feliz e passar bem - Parte I

Ela começou o ano de forma minuciosa. Não quis responder, nem intrometer. Não quis magoar, nem exagerar. Simplesmente, foi cautelosa. Mas não durou.

De todas as formas que poderia esconder tamanho sentimento com suas paixões, foi incompetente. Não soube proceder, entregando de corpo e alma cada pedacinho que compunha sua sensação. Tudo se transformava em histórias. Qualquer situação era motivo para criar uma fábula interna e depois, afundar-se em mágoas.

A primeira paixão do ano, era a última do passado. Sentimento que os fogos não conseguiram apagar. E com isso, ela abdicou de tudo. Inclusive daqueles que a desejavam de verdade.

E quando viu que não era amor que sua paixão precisava, começou a entornar-se num desespero imenso. Tinha dentro de si a idéia de que fisicamente não era suficiente para aquele que sempre esteve rodeado de rostos finos e bonitinhos, frágeis. Entretanto, aflita pelo fato de não ter mais o que oferecer, se ofereceu.

Pensou por um momento que o êxito de sua jogada estava em ter conseguido atingir a libido daquele que mirava. Porém, mais uma vez, perdeu. Teve seus sentimentos contestados quando estes foram novamente declarados. Seu corpo perdeu o valor quando este foi agregado às vísceras de sua paixão.

Já não havia mais o que se fazer. Chorar ao vê-lo, virou uma constante. Parecia que quanto mais ela queria fugir dele, mais ele aparecia. Ela já estava descrente de se curar, talvez nunca esqueceria. Mas como sempre esquece como é, esqueceu adquirindo outra.

07 Dezembro 2008

É assim

Um batalhão de pensamentos tem invadido minha cabeça nestes últimos dias. Tenho dúvidas, tenho arrependimentos, contudo abro algum sorriso e lembro que foi daquele jeito. Neste ano, eu poderia ter sido isento de muitas coisas, tantas já aprendidas do ano anterior e que eu não levei à prática.

Nestes últimos dias do ano, assim como nos anteriores, sempre alterno entre os preparativos de um outro ano e as mágoas dos meses passados. Do dinheiro mal gasto, dos planos desorganizados, com quem fui pra cama, com quem poderia ter ido, por quem me apaixonei, por quem agredi, por tudo.

Ano que vem, faço duas décadas de vida. E a coisa que eu mais queria é viver uma constante. Um ano de descanso para acalmar tudo. Se o trânsito irrita, se as pessoas gritam, se o dinheiro acabou, paciência, deixe estar.

Talvez eu não queira, tampouco faça uma prece para tal, aconchegar-me nos braços de outrem por simplesmente estar ali naquela hora, sem dose alguma. Preciso de consistência. Todos nós precisamos.

Até lá, eu passo por aqui. Ainda não veio a inspiração que eu preciso para relatar, não de forma eufêmica, a remoção daqueles que deixaram rastros durante estes meses.

01 Dezembro 2008

Sustentabilidade

Não diga que gosta, não se assuma. Não dê indícios, não se entregue. Não vá atrás, não insista.

Como alguém, ao conviver com inúmeros problemas, pode transformar a suavidade de estar apaixonado num campo minado? Transformar a essência do sentimento numa forma mesquinha de estar por cima em tudo, inclusive achar bonito gostar menos por se sentir superior.

Entendo que muitos devem tratar de forma errônea quem a elas assume tal sensação. Tanto entendo que já virei revés das minhas palavras. Entretanto, apesar disso, insisto que amar não é empreender, é deixar se envolver.




“Cuidado por onde pisas, que é sobre meus sonhos que caminhas"
(Carlos Drummond de Andrade)

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