25 Novembro 2009

Homem casado diz.

Os homens, apesar de todos os preceitos, são exigentes quanto às mulheres. Levam qualquer tipo para cama, mas casam-se com as virgens, (aparentemente) submissas e prendadas. As mulheres, porém, devem saber como lidar com toda essa atmosfera

Taís é casada há quatro anos. Aos sábados, acorda antes do marido, prepara o café e organiza as coisas necessárias para o jogo de futebol. Aos domingos, almoça na sogra e sorri amavelmente. Nenhuma gola está amassada, nenhuma roupa está manchada, nenhuma comida está azeda, nenhum beijo está frio.

Quando, por ventura, as vizinhas comentavam que Taís perderia o marido com tanta dedicação, ela sorria. O sorriso da tão prendada esposa era uma resposta para aquelas que mal sabiam que a noite ela era um furacão. Sem roupas de algodão, sem os olhos cansados, sem o cabelo religiosamente preso. Tempo ruim, nem nos dias chuvosos.

Taís e seu marido mantinham uma fiel amizade com seus padrinhos de casamento: Otávio e sua esposa, Carolina. Eles visitavam seus amigos com freqüência, varando madrugadas em risos e em álcool. Porém, o marido de Taís começou a ter problemas com a empresa e dobrou seu serviço, ao tempo que Carolina foi escalada para ministrar a recuperação no colégio.

Para não quebrar as tão corriqueiras visitas, Taís ia sozinha para casa de Otávio, que vinha a ser seu melhor amigo de infância. Passavam o começo da noite juntos, a espera de seus respectivos cônjuges. Bebidas, conversas e nostalgia. A órbita existente naquela sala era tão convidativa que incomodava ambos, mas permaneciam sentados sem movimento algum e sorriam aliviados quando seus parceiros chegavam.

Entretanto, o índice de aprovados no colégio nunca fora tão alto, ao ponto que a empresa nunca dera tantos lucros. Logo, simultaneamente ao desconforto dos amigos de infância, havia o conforto de uma cama de hotel. Carolina contorcia-se, nua, em meio às roupas jogadas pelo chão e olhava fixamente para o homem de quem foi madrinha de casamento.

Passou a mão pelos cabelos, levantou uma das sobrancelhas, passou a língua nos lábios, deixou seu rosto expressivamente sexual e perguntou:

- Eu sou melhor que ela?

- Não... – respondeu.

04 Novembro 2009

Atraiçoada.

Este conto não tem um começo.


Sentada na cama, lixando as unhas, a mulher olhou para o marido. Ele estava estirado na cama, com a mão sobre o peito, transpirando. Parou com a lixa em um ângulo frente aos olhos e depois abaixou os braços:

- Nunca achei que diria isto a você. Depois de tantos anos juntos e partilhando a nossa felicidade pelas tantas capitais brasileiras, estou enciumada. Achei que aquela história com a menina mais nova não iria desafiar minha confiança, mas estou intrigada. Algo dentro de mim diz que a paulistanazinha está apaixonada por você e não anda medindo esforços para consegui-lo. Mensagens fora de hora, melancólicas – aquela chatice de pedir colo – e ligações intermináveis. Nunca condenei você pelos pulos, pois eles sempre acabavam onde começavam. Porém, sinto-me culpada pela ausência em nossa relação e isto deu uma abertura para que essa adolescente petulante viesse a cogitar que você seria dela.— o marido já estava atento, com os olhos bem abertos, atônito — Veja bem. Não estou proibindo, nem insinuando que você deixe de vê-la. Não posso controlar isso. Você sabe que eu mal acompanho suas viagens e não consigo vigiar essa relação de perto. Apesar de saber de tudo o que aconteceu, confio no nosso relacionamento. Isto aqui — apontando para seu ventre — não é um romance de crianças na puberdade. Eu estou falando de anos. Anos! Só uma pseudo-criança poderia realmente achar que era páreo para a solidez que nos tornamos. Estou extremamente tranqüila quanto a isso, mas não gosto de correr riscos. Torne a vê-la apenas para saciá-la. Imponha a minha vontade nas suas palavras e elimine essa gota de preocupação da minha vida. Estamos entendidos?

O marido confirmou, calado, apenas balançando a cabeça e tornou a fechar os olhos. A mulher, satisfeita, deu-se por vitoriosa e continuou lixando suas unhas.

02 Novembro 2009

Costas quente.

Fulano chegou à cidade com pretensões de trabalho. Conheceu um menino e com ele partilhou seus últimos dias de estadia. Na sintonia em que estavam se relacionando, decidiu omitir alguns pormenores – mas quando estes foram revelados, já havia no anfitrião um interesse meteórico, suficiente para garantir o prazer dos dias posteriores.

Ciclano interessou-se pelas formas juvenis marcadas no rosto daquele garoto. Pobre garoto! Mal havia superado a sangria do relacionamento anterior e logo deparou-se com um caso similar. Com medo de escolher um ou outro, Ciclano decidiu esperar o que viria para garantir se ficava com o de alguns dias atrás ou o pós-adolescente.

Beltrano seduzia. Era do tipo que gostava de falar palavras de baixo calão para excitar a quem aspirava. O garoto, que já estava entrelaçado – em mente – na cama deste infeliz, viu-se em maus lençóis. O homem gostava de metralhar palavras a fim de conquistar o menino, mas no fim, acrescentava milhões de problemas para impedir a concretização do esperado encontro.

Parece que casos fictícios são a melhor forma de dizer que é muito feio prometer sem a certeza de cumprir. Garantir sem a certeza de dar continuidade. Fazer alguém esperar por algo que nunca virá. As pessoas não são televisões velhas que merecem esperar seus donos comprar uma nova para jogá-las fora. Ninguém é obrigado.

Hoje acordei com azia de pessoas – dissolvam!

29 Outubro 2009

Paulistana.


Acorda às sete da manhã e se arrepende amargamente de ter aproveitado aqueles dez minutos atrás para ter um sonho breve. Olha seu reflexo no espelho e verifica se a pele está melhor do que quando foi dormir. Nem muito fria, nem muito quente – a água do chuveiro mede a temperatura do dia que lhe foi reservado.

Atravessa as ruas, apressada, fitando as pessoas para ver se alguém assim a faz também. Espera ansiosamente o ônibus que nunca chega e, quando finalmente o avista, aperta-se numa legião de corpos sedentos de fadiga – e assentos livres. Desvia os olhos de qualquer objeto relacionado ao tempo. Prefere amargurar o atraso na chegada, não durante o percurso.

O meio-dia proporciona uma atmosfera de liberdade. O frescor poluído de São Paulo arranca-lhe a selvageria guardada em seu eu. Observa cada cidadão de modo a encará-lo como amante. Vencida pela fome, desiste das fotografias eróticas da mente e parte para uma vida acadêmica.

Decide, no começo da tarde, que não precisa de homem algum para melhorar sua qualidade de vida: sexo, carinho, telefonemas, blasfêmias para levar para cama – não. Ela não precisa disso. Mas em um piscar de olhos, vê-se implorando por uma noite regada de toques e corpos entrelaçados, embalados pelo sono.

Durante o dia, o supracitado repete-se diversas vezes. Pensa, então, nos que poderiam ter dado certo – pensamento pífio, já que ela não teve quem muito a amasse. Agarra-se numa melancolia desenfreada e culpa-se por palavras rebeldes. Entende o valor da derrota e, por conseguinte, seu significado.



Pudera eu, veja você, não estar banhado na aura desta pobre infeliz.



23 Outubro 2009

Por enquanto.

“Eis que ele virou daqui. Quando não era, saber que voltaria para os braços de quem sempre foi já me deixava aflito. Aqui, ele era uma novidade – era. Como tudo que é novo um dia é descoberto, assim aconteceu. Os amigos em comum foram gradativamente aumentando e a vontade de vê-lo longe, então, já não me afligia mais.

Eis que ele abriu o jogo. Não no começo, mas perto. Confundiu seis com uma dúzia – metade pelo inteiro. Mesmo com a fé que atribuí a tudo, não teve Davi e Golias que fizesse com que eu vencesse essa batalha. Fui me dosando de doses cavalares de ácido e destilava-as de forma que melhor condissesse com a minha dor.

Eis que ele sumiu. Desapareceu de mim, mas não do mundo. Rodou tudo e, talvez, todos. Aprendi, assim, que ser um grão de areia não é nada – a gente só sabe diferenciá-las quando estão em nossas mãos, mas quando a soltamos, viram mais um grão de areia, igual a qualquer um que já tenha passado por nós.

Eis que eu tentei. Tentei rir de situações quase que insustentáveis. Fingi que estava tudo bem porque “ah! pessoas vêm e vão”, mas não. Eis que tudo começou igual desde o começo, porque tudo na minha vida começa de um jeito e nunca termina – começa de novo do mesmo jeito, deixando as coisas inacabadas.”

Levantou-se e foi embora.


03 Outubro 2009

O menino kyrypy-meno.

No fim do verão, as doces águas dos rios já não ferviam perante o sol. Em meados do século XVI, o Brasil ainda tinha como sua população majoritária os índios. De culturas internamente respeitadas, levavam uma vida regrada de costumes que pouco se contestava.

Numa das invasões, uma das índias atreveu-se a se por à frente de um homem branco. Aproximou-se dele, retirou o cordão que segurava suas calças e iniciou uma manobra a fim de tocar-lhe as vergonhas. A saída dos invasores não poupou a índia de ser punida. Estava à ponto de ser sacrificada quando o detentor da fé impediu tal acontecimento – ela carregava uma vida em seu ventre.

Anauá nasceu nove meses depois. Purificado durante semanas, esperava-se que ele não angariasse de sua descendência a maldade caucasiana. Ao longo dos anos, percebia-se no garoto uma leveza nos atos, talvez nunca vista antes na tribo. O menino logo foi incumbido de ir à caça com os mais velhos – detestou. Tentou então outros afazeres masculinos, mas não conseguia adequar-se.

Passava maior parte do tempo com os olhos voltados para as mulheres. Não havia, entretanto, um desejo carnal, mas social. Anauá queria fazer artesanatos, levar os peixes para as ocas e pintar o corpo. Na adolescência, carregava longos cabelos e em pouco tempo, tornara-se o maior amante dos homens da tribo.

Apesar da dedicação com que tratava todos os homens que passavam por seu leito, Anauá não conseguia entender porque o respeito da tribo não se convertia num matrimônio estável. O jovem índio, filho de mãe índia e pai branco, passava maior parte de seu tempo angustiado, incompreendido por algo que não sabia explicar. Sentia-se inferiorizado - não pelas palavras, mas pelos olhos da aldeia, que não respeitava sua postura como homem.

Viveu durante anos com rancor de si próprio – não conseguiu mais do que as constantes visitas noturnas e algumas horas de prazer. Sua posição tirava sua importância como cidadão na tribo e - mais do que isso - as paixões de sua vida.

20 Setembro 2009

Construção.

Eu queria construir. Tirar do papel (lê-se cabeça) toda a obra arquitetada e arregaçar as mangas.

Sentir a brisa do vento na Avenida Paulista às cinco da manhã – na sorte de pegar todos os faróis abertos – com a via toda aberta para você. Lembrar de todos os sorrisos da noite com outro sorriso, resumindo a felicidade de ter com quem partilhar momentos. Acordar numa selva de pedras e respirar feliz pelo verde que cerca a sua janela.

Viajar pelo mundo e guiar-se pelas referências da dramaturgia – Leblon, Dubai, Miami... Morar na Bela Vista e dizer que mora nos Jardins. Almoçar em sete lugares diferentes na semana – mas na mesma rua. Assinar as presenças com tom de aprendizado. Traduzir o mundo num contexto geral, esquecendo propositalmente de certos pormenores.

Olhar para o horizonte e ver inúmeras cabeças, indo e vindo. Falar sozinho quando o da frente empaca. Falar com diversos quando a profissão vingar. Deitar numa cama macia, mas não mais macia do que o braço que me entrelaçar.

Brindar o dia como se fosse o derradeiro. Beber a vitória, beber a derrota. Abdicar do saldo e considerar somente os pontos ganhos. Tirar do papel e arregaçar as mangas.



Foto por Nestor Grun

13 Setembro 2009

Aos olhos da outra.


Fellicia iniciou, num jantar, um relacionamento com um homem com quem viria a dividir sua vida. Ela o conheceu pelos corredores da faculdade e logo se encantou com seu jeito bom de bico. Ele, como de costume, improvisou milhares de histórias absurdas a seu respeito – garantindo assim, uma boa moradia para os dois num bairro nobre da cidade.

Gabriela vive num relacionamento omitido pelo marido. Mesmo três anos com ele, ela jamais foi vista em público ao seu lado. Seu cônjuge chamava atenção por ser um homem inteligente, mas nas entrelinhas, não passava de um grande mestre em deteriorar grandes banquetes em comidas rápidas, à moda da metáfora cabível.

Rafaela é uma mulher de meia idade que vive um casamento há sete anos. Seu marido, um homem também de meia idade, é visivelmente muito atraente. Eles levam uma vida extremamente corrida, trabalhando incessantemente nos dias terminados em “feira”, nos fins de semana e nos feriados – o que não implica na vida social deles, nos charmosos jantares com os amigos de faixa etária semelhante.

Daniela não se casou e não teve filhos. Acostumou-se com a vida de tendências do namorado e vive uma vida extremamente noturna ao seu lado. Seu relacionamento foi quase esquecido por ambos, mas ela não deixou que isso acontecesse, dizendo a ele seus mais fiéis sentimentos. Ele, por sua vez, acatou e retomou suas promessas de amor, afirmando tais verdades para aqueles que preferiam não ouvir.

Quatro esposas. Quatro maridos. Oito pessoas.

E uma breve sinopse de quatro mulheres elaborada por uma outra mulher – que nunca as viu e que sequer sabe de suas vidas - mas emendou os flashs das noites em que se deitou com seus respectivos maridos.

06 Setembro 2009

Correspondência.

Cidade do Cabo, 15 de Maio de 1947


Carl,


Escute-me. Feche os olhos, prenda a respiração, solte as mãos e escute-me. Eu já não consigo mais esquecer seu toque, seu olhar e suas palavras que me aquecem em noites frias. É difícil conter a angústia de saber que estou atrás da cortina da sua vida. Tento escolher as melhores palavras para descrever tamanho sentimento, mas acabo por enrolar-me num cordão de injúrias contra você. Quero participar da sua vida, aceitar suas condições para estar, ao menos, ao seu lado. Não desejo seu mal mesmo que para desejar seu bem, eu necessitaria estar com você, entrelaçada entre seus braços.

Não me julgue pelas opiniões arcaicas, não me olhe de forma a sentir pena. Somente compreenda que eu apenas gostaria de relatar a desenvoltura deste sopro que me envolve. Pensar em ti desperta-me das sensações mais bonitas às mais obscuras - quando penso que a sua beleza está longe de ser só minha. Caio em contradição quando falo de você com rancor e depois me pego perambulando num quatro de três metros quadrados, choramingando a saudade que sinto dos nossos momentos.

Poderia viver uma outra história se quisesse. Acharia qualquer pretendente para sanar o prejuízo que você anda causando dentro de mim, com a sua ausência e indiferença. Mas não. Tudo o que eu queria era poder acabar com todas essas agulhadas frenéticas que despertam quando meu pensamento corre por você. Voltar no tempo e ter dormido mais cedo, sem esperar pela sua chegada, sem esperar por algo tão especial que está fora do meu alcance.

É triste, eu sei. Perdi o paladar das coisas mais saborosas. Perdi, perdi, perdi. Mas como sempre ganhamos em outros aspectos, a vida deixou a vitória implícita aos meus olhos. Eu queria você, não tenho. Luto contra seu calendário, contra a sala cheia de visitas e o anfitrião.

Eu não te amo. Eu não sei do que se trata.


Norah.


02 Setembro 2009

Cidadão, observação.

As temperaturas climáticas carregam uma ligação de estima comigo. Nos dias de frio, a melancolia de estar dividindo o leito com a minha respiração; nos dias de calor, a sede de beber a lascívia de quem me atrai.

Porém, para fugir do clichê que cada uma dessas sensações carrega, peguei-me num dia extremamente inquietante. Meus pensamentos estavam voltados para uma organização que a minha cabeça não conseguia processar. Fui vitima da ironia de “jogar consigo próprio e perder”. Todos meus objetivos como homem, menino, estudante, profissional e cidadão se resvalaram. Quando tive ciúme, quando tive preguiça, quando tive vontade, simplesmente cedi à fadiga de me manifestar.

Percebo, então, que quanto mais fico a mercê do desgaste, mais viro peça programada para observar. Assim, surpreendi-me quando vi que o gordinho do colégio virou o alto e esbelto menino do ônibus; o bom pretendente tem planos maiores do que o viaduto Leste-Oeste; a professora competente mal vira os olhos para o lado, pois não acha significante debater idéias com quem mal age em sala de aula.

Mergulhei num turbilhão de pensamentos acerca de tudo que me ronda e afirmo que sou tão mais retrógrado do que aqueles que um dia julguei. Não choro por amores que se foram, mas aqueles que nunca vieram.

27 Agosto 2009

Casa de cartas.

Ela estava sentindo o azedo de mais uma paixão não correspondida. Percebera que, às vezes, homem nenhum pode suprir solidão alguma quando nós não sabemos ser auto-suficiente. Na dúvida de como matar o tempo e mais, matar a melancolia, ateou-se numa busca incessante pelo fácil. Conseguiu.

Parecia estranho, mas mesmo sem tê-lo visto pessoalmente, ela já sabia que algo bom havia lhe sido reservado. Tentou preparar tudo de forma minuciosa para que fosse reconhecida, além de outros atributos, como uma boa anfitriã. E assim o recebeu, de braços e pernas abertas, num silêncio forçado para não acordar o inimigo do quarto ao lado.

Numa questão de segundos, o gosto ruim foi tomado por um frescor delicioso. Uma sensação que durou até o primeiro adeus. Amargou o doce gosto do encanto e viu suas novas promessas de vida irem ao ralo. Entretanto, como de costume, afiou-se nas palavras a fim de auto-afirmar-se.

Não sabendo lidar com a perda, aceitou o parcial e acreditou na última e talvez a única forma de tê-lo por perto. Mas mesmo assim, maquiando sua aceitação para tal, sente-se excluída na hora de saber quando, onde e como prestigiá-lo.

25 Agosto 2009

Falso Neon


Tenho observado nestes últimos tempos na sociedade sudeste-brasileira – mais especificamente na ponte Rio-São Paulo – que surge uma nova tendência em engrandecer nomes desconhecidos em prol de um sucesso maquiado.

A constatação para tal afirmação dá-se pelo fato de eu estar afastado dos eventos noturnos que antes freqüentava – destinei minha verba e paciência para outros ares. Meus antigos contatos, muitos deles do balcão do bar, recheiam o quadro de atualizações do fim de semana com uma infinidade de fotos de diversas pessoas que eu conheço de vista. Então, sou apresentado às legendas.

Jesus, Maria, José – que deveriam fazer sucesso nos presépios e nas parábolas católicas – agora freqüentam uma pseudo-coluna social como DJs de renome (muitas vezes inventados ou pesquisados no Wikipedia) pela noite alternativa. Para fixar tamanha importância, riscam o estoquista do currículo e passam a ser referência como estudantes de moda e/ou estilistas.

Nesta minha época mais fatigante, prefiro correr maratonas em vão a ter que encostar-me na sacada (lê-se camarote) da preguiça e presenciar o banho de modernidade.

19 Agosto 2009

Amor de perdição.

Freud poderia explicar com suas milhares de teorias de psicanálise sobre tal assunto. Porém, dispenso. Este texto não se trata de nada inspirado no romance de Camilo Castelo Branco, apesar de eu simpatizar muito com a história – mas muito mais com o título em questão.

Durante a longa espera pelo transporte depois de uma curta jornada de trabalho, fui surpreendido com uma ação inusitada de outrém. Uma mão no bolso e um olhar banhado de lascívia. Pus-me a andar feito barata tonta, a fim de desviar de tamanho desparate e seguir meu rumo.

Ao chegar ao meu destino, deparei-me novamente com um caso similar e nesta conjuntura, caí na questão de que por vezes chego a suar frio quando imagino o teor amador que existe nos lugares menos indicados. Deve existir em mim algum aroma propenso a tais situações.

Cinematograficamente, vou assistindo meus passos rumo a um futuro promissor – pelo menos pretendo conseguí-lo. Porém, a atmosfera deste amor de perdição, que por muitas vezes me faz desistir do que é certo, tira-me do eixo.

07 Agosto 2009

Debutante.

Carrego duas décadas de vida bem vividas nas costas. Relaciono-me – entenda em todos os sentidos – com pessoas de idade variadas. Estou naquele grupo intermediário do ser ou não ser, eis a questão. Entretanto, avaliando cada ponto de certas situações, porto-me como um ser retrógrado.

Certa vez, em um clube noturno, peguei-me enchendo a mão no rosto de um alguém que nunca vi na vida, pois este havia enchido a mão em minhas partes íntimas. Não sou dos mais puritanos, estou longe de ser, mas a sensação de ser dar ao respeito e atribuir um desconhecido valor ao que já tinha sido desbravado dava-me prazer.

Em dois anos como graduando, posso contar nos dedos de uma mão quantas vezes fui ao bar. Prefiro ficar sonhando em sala de aula com meus cadernos devidamente preenchidos pela minha esbelta caligrafia.

No mais, sinto-me extremamente desejado quando recebo flertes de pretendentes de idades avançadas a minha. Isto se dá pelo fato de sentir-me protegido nos braços de alguém que tem experiência em zelar por corpos aflitos de inocência.

Não. Nunca desejei dançar com 15 casais, nem penso que vivi meus quinze anos pela metade. Tenho em mim, ao que parece, uma eterna alma de adolescente.

25 Julho 2009

O Retrato.

O dia passava das duas da tarde. O céu estava alaranjado. Os casais caminhavam pelo trajeto de concreto em meio ao mar de verde do grande parque. Enquanto isso, duas pessoas se fitavam num quarto onde a luz do dia chegava pelas fretas da persiana semi-aberta.

Ele deitou e olhou para cima. Estava pensando na magia do momento que se contemplava com a invasão de pequenas flores que atravessavam o vão da janela. O vento soprava uma mensagem de amor, conduzindo o olhar dele para a menina que de pernas cruzadas incomodava-se com algo em seu corpo.

O aroma da situação tomou lugar ao inodoro do vazio do quarto. Ela deu alguns passos na madeira velha e deitou-se ao lado dele. Recitou alguns versos de romancistas da segunda geração e sorriu. Ao vê-lo sem reação, virou sua cabeça para o lado oposto e assim, acentuou a textura do piso velho com uma única lágrima que escorria.

Sem perceber tamanha lentidão de seus atos, ele simplesmente tocou-a no braço e engasgou qualquer mensagem. Existia naquele homem a fobia de declarar algo tão forte - mais do que isso, ele via beleza no simples.

Assim, permaneceram intactos, sem que as outras pessoas do ambiente reparassem em alguma mudança no retrato.


O pior cego é o surdo. Tirem o som de uma paisagem e não haverá mais paisagem.

(Nelson Rodrigues)