Eu
não acredito na maldade. Acredito em desvios, escolhas ruins, surtos de egoísmo,
mas maldade é um lapso não cognitivo na minha cabeça. Porém, às vezes, em
certos momentos sob o mesmo teto da filiação da filiação, repenso minha
descrença.
Verdades
são relativas. Eu, por exemplo, já pisei em terrenos conquistados, me apaixonei
pelo acessório anelar, fui apontado, abaixei a cabeça e reergui quando, num
súbito, o horizonte era outro – tudo isso com vinte e três anos completados.
Como pode, então, aos oitenta e um anos, uma pessoa conseguir esboçar qualquer
opinião que se autobeneficie de razões, que o exima de qualquer culpa?
É
absurdo – e um tanto revoltante – viver sob um regime ditatorial que não é de
obrigação e, agora, mais do que nunca, por necessidade. Existe um mundo lá
fora, com alugueis e ofertas cada vez mais atrativas em questão de vivência.
Contudo, o olhar do regime – que deseja a falência vital de seus próprios
filhos – está acompanhado da doçura da primeira-dama, cuja companhia me faz
aguentar o inacreditável, o censurado indiscutível.
Existe uma facilidade
que as pessoas normalmente encontram para designar um determinado alguém que
passou por uma situação: "Tenho um amigo que etc etc etc". E, então,
num súbito, repensa-se: um colega, um conhecido.
Tenho refutado tais
citações porque passei por situações delicadas nos últimos meses, cuja denominação
de amizade passou por diversos altos e baixos. Minha memória ainda tenta
rememorar a infinidade de pessoas que registraram um "conta comigo"
no falecimento da minha mãe e quantas, de fato, deram-se à conta. Porque tenho
percebido que o amigo verdadeiro não é necessariamente aquele que comparece à
comemoração de aniversário - muito mais, é aquele que lamenta não poder ir,
mostrando-se verdadeiro no penar.
Por estas pessoas, que
juntas tentaram suprir a saudade e a dor da perda, que presentes ou ausentes
fisicamente em momentos de alegria estiveram comigo, devo total consideração e
satisfação. Sou independente, mas não sou formado de uma parte só. Sou coração,
sou cérebro, sou tronco, sou pessoa. Inseguro, confuso, vertebrado, solteiro. E
amo, amo muito, dou-me esta oportunidade quase que suicida, mesmo que as
consequências sejam desfavoráveis. Se é egoísmo, não sei. Mas as atuais
conjunturas me fazem antecipar as férias laborais por um descanso obrigatório
social – cuja língua descarta, cada vez mais, a vontade de aumentar e
considerar aqueles que em situações eu costumo chamar de amigo.
Abril
esmaecido. Tal qual março. Um tanto quanto fevereiro. Decorrente do fúnebre
janeiro. Uma prova de que eu não consigo conceber uma roupagem que não respeite
o meu interior.
Fui tomado por súbito
suor, que, diferente de qualquer outra vez, transbordava pelo meu tecido da
pele, mas não se expunha externamente. “Como assim, não sabe dizer?”. Ela
insinuou um nunca se sabe para a
sexualidade da minha avó, que está casada há 54 anos. Tratava-se de uma
cobrança absurda de uma empresa de serviços televisivos privados, cuja
liberação do canal de sexo explícito entre mulheres fazia com que eu me
atrasasse para o dia que eu mais gostaria de chegar cedo: sexta-feira.
Apesar de produtivo, o
dia já estava carimbado. Passava das dez da manhã quando embarquei no metrô, a
primeira estação da linha. Parecia muito sossegado quando, em um piscar de
olhos, pessoas se aglomeravam e se espremiam entre cadeiras, ferros e
corredores. Como é possível tanta gente aparecer, assim, do nada, fora do
horário de pico? São Paulo é a resposta, mesmo que o enigma.
Já era noite quando saí
à avenida São Gabriel, pouco movimentada e embalada em um vento agradável. O
ônibus demorava mais do que o habitual. “Está tarde” – pensei. Largo São
Francisco, um ônibus de cor vinho amarronzado, chegou abarrotado. Um megafone
no meu sistema respiratório teria berrado meu suspiro cansado, mas consenti e
me enfiei no meio de qualquer canto.
O trajeto, que
normalmente demoraria pouco mais de vinte e cinco minutos, durou cerca de 1
hora e meia e levou, assim como alguns passageiros fatigados, a minha paciência
– que já estava pífia. Desci do ônibus, dei alguns passos, cheguei à avenida
Paulista e parei no farol. O sinal ficou vermelho para os carros e, em uma
pressa súbita de chegar em casa e não perder a novela, avancei antes de os
outros pedestres tomaram consciência da sinalização. Ouvi uma freada brusca, um
grunhido insuportável, fino. No cruzamento da Brigadeiro com a Paulista, lá
estava eu, parado, mumificado, com a possibilidade ridícula de ser atropelado por uma bicicleta.
Seria eu a pessoa mais
estúpida de conseguir a proeza de fechar o dia com um atropelamento de
bicicleta?
Dia
frio em São Paulo. Dia frio, entretanto, não é sinônimo de menos calor dentro
do coletivo – muito menos de trânsito ameno. Desci, embarquei. O metrô estava
relativamente cheio. Gosto assim. Sou observador e, naquela situação, eu
poderia bisbilhotar escritos, mensagens de texto, bilhetes e qualquer outra
coisa aparentemente interessante sem me debater com o rosto grudado ao vidro.
Normalmente,
vejo estudantes lendo xérox com
palavras pintadinhas e, às vezes, rio quando o trecho grifado não é, de fato, o
mais importante da sentença. Hoje, em um desses momentos, fui surpreendido por
uma visão extremamente atraente, beirando os cento e noventa centímetros,
cabelos dourados, barba cerrada e um rosto marcado pelo conteúdo (talvez não)
compreendido de um livro cujo título não consegui ler.
Tive
a impressão de uma recíproca. Talvez fosse coisa da minha cabeça – esta que
pouco compreende como as pessoas conseguem resetar
as outras e os momentos em que viveram, mesmo que em pífios dias, em tão curto
tempo. De qualquer forma, passei fitá-lo interruptamente, ao ponto de ver a
última estação ser anunciada em um piscar de olhos. Ele saiu, eu saí. Subi as
escadas um degrau atrás dele, sentindo um delicioso perfume, nada
característico, um aroma que não reconheci. Sua blusa azul era um oceano que se
espalhava altivo e orgulhoso por suas largas costas, mas ele se perdeu.
Logo
vi que não iríamos subir a mesma rua também, mas refutei minha insegurança e
pensei: “Talvez, quando eu virar à direita, ele vire à esquerda e, daí, nos
encontraremos na mesma rua novamente”. Isso não aconteceu. Segui pelos poucos
quarteirões que distanciam a estação da minha casa. Sorri. Sorri, não sei, mas
sorri. Havia de existir uma vida relativamente brilhosa, mas tão escorregadia? E
com o sorriso, ainda que tímido, abrindo-se pelo meu rosto, a Ele indaguei:
–
Dá pra parar de passar lustra-móveis
no meu destino?
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“Sou todo de incoerências. Vivo desolado,
abatido, parado de energia, e admiro a vida, entanto como nunca
ninguém a admirou”.
(Mário de Sá-Carneiro. A Confissão de Lúcio, p. 84)
Sinto
a minha vida um tanto cinematográfica. Uma série de clichês de filmes, cujo
personagem, que no fim será feliz e casado, inicia a história se arrastando
pelos lugares, quase que indo trabalhar de pijama. Hoje, por exemplo, me
envolvi na leitura de um livro e quase perdi o ponto para descer. Isso, por
alguma razão, destruiu minha manhã – uma analogia de que eu não sou responsável
nem pela mínima ação que se possa atribuir a alguém.
Existem,
porém, várias situações que não consigo conceber nos últimos tempos. Algo que
ronda a minha cabeça repetidamente, um sopro no ouvido que diz: "você
perdeu". Mais do que um aviso da derrota, um presságio das consecutivas
que ainda virão. Se o ônibus está lotado, se começa a chover no horário de sair
de casa, se desmarcam encontros ou se são grosseiros, se não dão vazão aos meus
sentimentos – tudo, tudo –, se transforma em uma enorme bola de angústia.
O
valor que as pessoas dão às coisas me deixa incompreendido, pois um diploma,
dois - no meu caso - não me faz melhor ou mais feliz. O quanto eu consegui até
aqui? Até onde eu cheguei? Tudo isso para ser recompensado no determinado dia
do mês, para ver se valeu a pena o esforço.
Tenho
baseado a minha vida em aspectos pré-determinados e, portanto, não tenho a tornado
vida e pouco sei do aspecto real do que é viver, mas a busca continua...
Hoje falei sobre
amadurecer. Ontem também. Não é uma sensação que chega todos os dias,
principalmente nos finais de semana, quando o meu corpo clama pela embriaguez
da mente.
A situação pela qual me
coloquei é muito além da coragem de enfrentar, ainda com medo, aquilo e aquele
que me faz estremecer na cadeira. Mais do que nunca, eu quis impressionar sem
ser visto. Quis me manter calado para o olhar responder todas as possíveis
perguntas: “Sim, sou eu”; “Sim, ainda não sarei de você”; “Sim, pode voltar, eu
estou esperando”. E fui embora.
Amadurecer, agora, a meu
ver, é mais do que tentar curar um amor não correspondido. É valorizá-lo, é
saber esperar, é cuidar de um sentimento que é bonito e, por consequência, não
merece e não deve ser exterminado como se nunca tivesse acontecido. Pois lá
estava eu, por você, por mim. E ao ir embora, já no táxi, senti da testa
escorrer um resquício do banho de realidade que eu mesmo me proporcionei. Seja
lá qual seja a voltagem, eu estava quente, assim como a lembrança da primeira
carona e do último adeus.
Mesmo sendo errados os amantes, seus amores serão bons
Há muito São Paulo não
me apetece, seja pelas perdas recentes, seja pela fadiga do caminho igual todos
os dias, seja pela falta de novidade em uma cidade que, ao olhar externo, tanto
se reinventa.
Tenho refutado minha
vontade em assumir meus arrependimentos, porque tento amadurecer minhas
decisões e não voltar para trás. São Paulo, que já é melancólica, virou o palco
dessa tragicomédia que se tornou a minha vida: risos e gargalhadas que se
encontram às saudades e falsas promessas de um novo tempo que vem.
E não há dentro de mim uma
timidez no assumir, em dizer que não está tudo bem, não! Que eu preferia essa
cidade fria a ter de confundir as repentinas lágrimas ao suor do calor
insuportável, em meio a uma multidão pouco erudita pela pressa de chegar ao
destino final. Talvez eu queira ir embora, dizer: "Bye, bye Brasil. A última
ficha caiu". Ou, talvez, como a violeira, de mala e cuia, cair no Rio, ver
Ipanema e seu cenário de cinema.
A verdade é que sou
formado por este concreto ingrato, que pouco me devolve felicidade, mas que é
rolante e acelera meu andar e meu progresso.
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...
Tenho grande apreço pelo
Carnaval. Talvez seja uma herança hereditária, quando minha mãe, aos nove meses
de gravidez, sambou na avenida com o corpo seminu, como gostava de enfatizar.
Amanhã, quando meu samba completa 23 anos, percebo que sou feito de diversos
sons, do chorinho ao repique, do samba-enredo ao samba-canção.
“Quando enfim eu nasci, minha mãe
embrulhou-me num manto Me vestiu como se
eu fosse assim uma espécie de santo Mas por não se
lembrar de acalantos, a pobre mulher Me ninava cantando
cantigas de cabaré”.
“Minha
História”, Chico Buarque (1970)
A vida é uma avenida,
uma Sapucaí que Deus decide a dispersão, que sacoleja o destino no recuo da
bateria. O Carnaval é uma analogia da vida, porque ao longo do desfile existem
julgamentos, notas baixas, notas altas, pessoas torcendo por você, pessoas que
trabalharam para você estar ali. Assim como alguns, infelizmente, querem ver o
brilho da fantasia acabar, a alegoria emperrar, a cuíca desafinar. Assim é na
vida, assim é no amor.
“Agora sei, desfilei sob aplausos da
ilusão E hoje tenho esse
samba de amor, por comissão Fim do carnaval,
nas cinzas pude perceber Na apuração perdi
você”.
“Enredo
do meu samba”, Dona Ivone Lara e Jorge Aragão
Difícil, porém não
impossível, encarar mais um ano sem rememorar os anteriores. Uma série de
mudanças foi dando forma à harmonia, em um dez absoluto em evolução. Mas perdi
também: a mulher mais importante da minha vida e os alguns pelo qual investi. De
qualquer forma, seja na avenida ou no bloco, sempre estarei de volta ao samba.
“Porém meu samba, o trunfo é seu Pois quando de uma
vez por todas eu me for E o silêncio me
abraçar Você sambará sem mim”.
Minha
mãe era uma pessoa que se esforçava. Às vezes sentava na minha cama e se punha
a fazer milhares de perguntas, fingindo um interesse, querendo mostrar que cada
palavra que saía da minha boca eram as mais valiosas do mundo. Um dos elogios
que ela fazia, nestes momentos, era exaltar a qualidade da minha escrita – e é
com ela que eu vou prestar a homenagem que, por vezes, achei que fosse
antecipar e que infelizmente chegou.
Taurina, corinthiana, nascida no Brás
e criada na Mooca – como gostava de enfatizar. Era uma mulher que se apegava a
qualquer crença pela qual se beneficiasse. Seguiu todos os dogmas possíveis.
Foi à igreja de joelhos, conversou com o pastor, tomou um passe, incorporou a
cigana. Era bairrista também: de todos os amores, aventuras, desejos – todos,
numa mínima exceção, eram mooquenses. Ela sempre dizia, cheia de orgulho: não
moro em São Paulo, eu moro na Mooca! E ali, nos gloriosos títulos brasileiros de 1998 e 1999, lá estava ela para puxar o "Poropopó, Corinthians veio pra vencer".
Amou muito também. Com
intensidade e diversidade. Minha mãe foi aquela que viveu tanto que os anos
foram correndo de forma tão rápida que o fim chegou cedo: cinquenta e dois anos,
de puro cigarrinho na mão, pigarro, palavrões, vida escancarada e a incansável
vontade de ser compreendida. E eu, por criticá-la e talvez por ser igual ou
pior, entendia tudo, em silêncio, desabando por dentro, querendo dizer: “Ó, controle
suas emoções, eu to aqui”. E todos estavam. Os filhos, os pais, a nora, a
vizinha. Maria Luiza se tornou uma luta pela qual todos batalharam.
Em alguns momentos,
quando o pensamento corria pela minha mãe, eu temia não chorar em seu velório.
Quando ele aconteceu, mal consegui falar. Foi como se todos os males tivessem
sido esquecidos e a mãe que chegava orgulhosa da reunião de pais, segurando o
boletim do caçula, tivesse encarnado em mim. A mãe que me esperava fazer as
provas da escola técnica, em todas as milhares de tentativas; a que, com
naturalidade, passou a falar comigo sobre a vida multicolorida, que me cobrava
para ir aos lugares, conhecer minha realidade, minhas paixões.
Minha mãe ficará
eternizada em mim porque não existiu melhor exemplo a ser seguido. Por ela – só
por ela –, eu conquistei cada subida de degrau nessa vida que, a meu ver, não é
nada fácil. Por ela, eu brigava por décimos na escola, para fazê-la feliz na
reunião de pais, ter um motivo para se orgulhar. Por ela, eu comecei a
trabalhar cedo, garantindo o mínimo possível de responsabilidade sobre meu
sustento. Por ela, eu me tornei o filho graduado, o primeiro dos netos da Dona
Anita, o que foi, por muitas vezes, deixado de lado, por ser filho dela, por
ser o segundo filho sem pai, por ser o filho com trejeitos que não competiam
aos convites litorâneos. E ela, por não ter conquistado nada e, mesmo assim,
ter batido o pé por suas vontades, foi o exemplo que eu segui, por ir à
contramão.
Hoje eu sei, apesar de
recente, o que é sentir a saudade mais dolorosa, a dor mais pontiaguda, o
respirar mais ofegante. Eu perdi, pelo menos fisicamente, meu maior desafio –
mas a minha pimentinha, que cantava de forma doce “O Bêbado e o Equilibrista”,
tinha de cessar o furacão que foi sua passagem por aqui.
Eu te amo.
"(...) sabe que o show de todo artista tem de continuar".
Eu me orgulho de tantas
coisas sobre mim que beiro a prepotência - que é, para mim, um dos sentimentos
mais feios de todos. Eu sei que conquistei muitas coisas com esforço próprio,
mas não conquistei muitas coisas por culpa minha. Não por falta de aprendizado,
porque eu tive muitas chances. Eu rodei em tantas ocasiões que o calejar
deveria se transformar em cartilha, livro motivacional de prateleira de livraria
- mas não. Eu insisto, persisto.
Existe, entretanto, o
meio copo: metade cheio, metade vazio. Consigo perceber que nem tudo está
errado. Eu nasci assim, sou aflorado, gosto de dizer: "sim, te amo";
"sim, quero estar com você"; "sim, sinto sua falta", mesmo
sendo politicamente incorreto - ou conjugalmente. Para mim, "o que é demais nunca é o
bastante". A vontade em assumir todos e completos sentimentos me torna
chato, piegas, irritante e qualquer sinônimo que remeta à repetição
desenfreada que conjugue o verbo querer.
Agora, aqui, com o bloco
de notas aberto, estou deslizando os dedos pela tecla justamente para não
responder o meu próprio e-mail, minha própria mensagem, não parecer grudento. Não
tenho tino para virar as costas e ir embora sem arriscar a palavra, saber se
houve uma desistência real, de verdade. Simplesmente, volto para ser carimbado
novamente.
Sabe quando o ano já
está engrenando em amplo aspecto, mas
parte daquilo que você acreditou durante os fogos do anúncio do novo ano não
aconteceram? Estou me sentindo assim.
Eu prometi a mim mesmo
que não iria me relacionar com gente que não pode dar vazão aos meus
sentimentos. E daí, numa questão de duas semanas, pouco mais de dez dias, eu
estou quase implorando por um telefonema, um convite, um abraço - que seja, uma
forma que contemple o meu sentimento não reconhecido. Claro que existe uma
procura muito incisiva, com perfis quase iguais, que, ao mesmo tempo, não é uma
procura, mas sim um karma, um destino transviado, um imã por pessoas cuja massa
apodreceu, nascidos de 10 meses.
O que fazer com toda
essa insegurança, essa vontade de largar tudo pelo caminho e me dar uma nova
chance, a quem realmente vale a pena: a mim mesmo? O que fazer com você, assim
logo de cara, ano de 2012? Eu quero uma resposta.
How can you offer me love like that?
I'm exhausted
Leave me alone
Tem muita gente por aí
reclamando de 2011, o que é de se respeitar, já que ninguém vive o mesmo ano
que o vizinho. Eu, no geral, acredito que vivi doze meses sem grandes decepções
– algumas, claro, normal, acontecem. Hoje, com a bermuda laranja e a camiseta pólo
anunciada como uma forma de manter uma sintonia por meio da fibra do pano, irei
para o meu vigésimo terceiro ano de vida, com esperanças de emancipação – em amplo
aspecto.
Comecei o ano formado e
desempregado – e, na assonância contínua, apaixonado. Por ironia do destino, um
carioca que inicia e um carioca que finaliza. Foi neste ano que eu aprendi (ou
talvez fui mais cauteloso) a esperar que as coisas seguissem o curso natural da
vida. Subi os degraus que eu almejava durantes os fogos do ano anterior.
Arrumei um emprego melhor, com mais perspectiva, com uma rotina alucinante. As
mudanças, porém, não pararam por aí.
Ao chegar do expediente,
abrir a porta de casa e ver que existe família e que ela, apesar de todos os
entretantos, é indispensável. Mais do que isso: colocar um fim no rancor,
reaprender a abraçar minha mãe e compreender a música que leva seu nome:
debaixo dessa neve mora um coração.
Em 2011, eu amei muito,
mas não peças novas. Ratifiquei minha paixão fraterna, entre amigos, com amores
que se renovaram. Apostei na felicidade mais absurda, arrisquei os flertes mais
improváveis e, até o momento, não sei no que tudo isso vai dar, mas é
sentimento, é verdadeiro e segue firme.
O que eu espero de 2012?
Que ele não chegue nunca! Que seja apenas uma folha de calendário, uma extensão
do que foi meu ano, de muita aprendizagem e vivência intensa. Que exista
onzembro, dozembro, trezembro e uma evolução que nunca estanque!
Estou
pensando na beleza do papel, excluindo da cabeça todo o pensamento sustentável;
criando a imagem de alguém que, de fato, importaria e se gabaria em ser o
destinatário. As letras iriam atingir o mais alto índice de autonomia e se
agrupariam de tal maneira a apresentar assim:
O fim de novembro se aproxima, tal como
dezembro se prepara para a apresentação. Ainda moro em São Paulo. A paixão
janeira pelo Rio de Janeiro não foi suficiente para tirar o crédito da
fumaça-trânsito-amor-inexistente. Minha cidade é filha da putamente deliciosa.
No mais, gosto da vida que ando levando. Diminuindo a diversidade social
noturna e valorizando os storyboards no fim de semana. Isso torna tudo mais
colorido se comparado ao meu novembro passado, quando a injustiça corporativa
tirou de mim o que eu mais queria. Pois bem, estou muito melhor do que estaria:
pleno e com plena certeza.
Ontem revi minhas melhores amigas. Faltaram
algumas, mas a maioria estava lá. Poderia ser triste, mas é compensador ver que
durante os anos juntos, elas foram as únicas que permaneceram. No meu jogo de
xadrez, os alpinistas, fashionistas, imigrantes e de caráter intrigantes
caíram, levando consigo suas premissas de vida. Tenho me sentindo à vontade com
amigos do trabalho também. A cerveja da sexta-feira se tornou um ritual gostoso
de participar, com pessoas que eu passei a admirar. Amizade não é estepe, mas
tenho sentido que faz bem variar, rir de piadas diferentes, compreender dramas
reais.
Ontem eu investi. Hoje eu desisti. Amanhã
nunca se sabe, mas presumo que estarei disposto novamente, assim como estive
nos últimos tempos com o casado, com o almofadinha, com o roteirista de
comédia, com o filósofo, com escritor, com o marombado, com o
filhinho-da-mamãe, com o hipócrita arquiteto hospitalar, com o fulano, cicrano
e beltrano. De tão pequenos, pareciam poucos separadamente, mas agrupados
mostram o quanto eu me entreguei por nada. Como se tivesse sido diferente em
2010, em 2009...
Com um livro do Caio Fernando Abreu aberto
(“Cartas”), que é praticamente o meu “Gotas da Sabedoria”, veio-me à cabeça a
melhor e mais verdadeira autossugestão dos últimos tempos: “Não se perca. Não
se esqueça. Viver bem é a melhor vingança”.
Well of course I'd like to sit around and chat
But someone's listening in