21 Maio 2012

A idosa verdade.


Eu não acredito na maldade. Acredito em desvios, escolhas ruins, surtos de egoísmo, mas maldade é um lapso não cognitivo na minha cabeça. Porém, às vezes, em certos momentos sob o mesmo teto da filiação da filiação, repenso minha descrença.
Verdades são relativas. Eu, por exemplo, já pisei em terrenos conquistados, me apaixonei pelo acessório anelar, fui apontado, abaixei a cabeça e reergui quando, num súbito, o horizonte era outro – tudo isso com vinte e três anos completados. Como pode, então, aos oitenta e um anos, uma pessoa conseguir esboçar qualquer opinião que se autobeneficie de razões, que o exima de qualquer culpa?
É absurdo – e um tanto revoltante – viver sob um regime ditatorial que não é de obrigação e, agora, mais do que nunca, por necessidade. Existe um mundo lá fora, com alugueis e ofertas cada vez mais atrativas em questão de vivência. Contudo, o olhar do regime – que deseja a falência vital de seus próprios filhos – está acompanhado da doçura da primeira-dama, cuja companhia me faz aguentar o inacreditável, o censurado indiscutível.

30 Abril 2012

Sobre perdas e ganhos.


- Ele é seu amigo?

Existe uma facilidade que as pessoas normalmente encontram para designar um determinado alguém que passou por uma situação: "Tenho um amigo que etc etc etc". E, então, num súbito, repensa-se: um colega, um conhecido.
Tenho refutado tais citações porque passei por situações delicadas nos últimos meses, cuja denominação de amizade passou por diversos altos e baixos. Minha memória ainda tenta rememorar a infinidade de pessoas que registraram um "conta comigo" no falecimento da minha mãe e quantas, de fato, deram-se à conta. Porque tenho percebido que o amigo verdadeiro não é necessariamente aquele que comparece à comemoração de aniversário - muito mais, é aquele que lamenta não poder ir, mostrando-se verdadeiro no penar.
Por estas pessoas, que juntas tentaram suprir a saudade e a dor da perda, que presentes ou ausentes fisicamente em momentos de alegria estiveram comigo, devo total consideração e satisfação. Sou independente, mas não sou formado de uma parte só. Sou coração, sou cérebro, sou tronco, sou pessoa. Inseguro, confuso, vertebrado, solteiro. E amo, amo muito, dou-me esta oportunidade quase que suicida, mesmo que as consequências sejam desfavoráveis. Se é egoísmo, não sei. Mas as atuais conjunturas me fazem antecipar as férias laborais por um descanso obrigatório social – cuja língua descarta, cada vez mais, a vontade de aumentar e considerar aqueles que em situações eu costumo chamar de amigo.

10 Abril 2012

Calendário.

Abril esmaecido. Tal qual março. Um tanto quanto fevereiro. Decorrente do fúnebre janeiro. Uma prova de que eu não consigo conceber uma roupagem que não respeite o meu interior.

You hid the key to our continuity.

30 Março 2012

São Paulo foi um santo?


- Você acha que a minha avó de 80 anos é sapatão?
- Não sei dizer, senhor.
Fui tomado por súbito suor, que, diferente de qualquer outra vez, transbordava pelo meu tecido da pele, mas não se expunha externamente. “Como assim, não sabe dizer?”. Ela insinuou um nunca se sabe para a sexualidade da minha avó, que está casada há 54 anos. Tratava-se de uma cobrança absurda de uma empresa de serviços televisivos privados, cuja liberação do canal de sexo explícito entre mulheres fazia com que eu me atrasasse para o dia que eu mais gostaria de chegar cedo: sexta-feira.
Apesar de produtivo, o dia já estava carimbado. Passava das dez da manhã quando embarquei no metrô, a primeira estação da linha. Parecia muito sossegado quando, em um piscar de olhos, pessoas se aglomeravam e se espremiam entre cadeiras, ferros e corredores. Como é possível tanta gente aparecer, assim, do nada, fora do horário de pico? São Paulo é a resposta, mesmo que o enigma.
Já era noite quando saí à avenida São Gabriel, pouco movimentada e embalada em um vento agradável. O ônibus demorava mais do que o habitual. “Está tarde” – pensei. Largo São Francisco, um ônibus de cor vinho amarronzado, chegou abarrotado. Um megafone no meu sistema respiratório teria berrado meu suspiro cansado, mas consenti e me enfiei no meio de qualquer canto.
O trajeto, que normalmente demoraria pouco mais de vinte e cinco minutos, durou cerca de 1 hora e meia e levou, assim como alguns passageiros fatigados, a minha paciência – que já estava pífia. Desci do ônibus, dei alguns passos, cheguei à avenida Paulista e parei no farol. O sinal ficou vermelho para os carros e, em uma pressa súbita de chegar em casa e não perder a novela, avancei antes de os outros pedestres tomaram consciência da sinalização. Ouvi uma freada brusca, um grunhido insuportável, fino. No cruzamento da Brigadeiro com a Paulista, lá estava eu, parado, mumificado, com a possibilidade ridícula de ser atropelado por uma bicicleta.
Seria eu a pessoa mais estúpida de conseguir a proeza de fechar o dia com um atropelamento de bicicleta?
Seria. 

28 Março 2012

Escorregadio.


Dia frio em São Paulo. Dia frio, entretanto, não é sinônimo de menos calor dentro do coletivo – muito menos de trânsito ameno. Desci, embarquei. O metrô estava relativamente cheio. Gosto assim. Sou observador e, naquela situação, eu poderia bisbilhotar escritos, mensagens de texto, bilhetes e qualquer outra coisa aparentemente interessante sem me debater com o rosto grudado ao vidro.
Normalmente, vejo estudantes lendo xérox com palavras pintadinhas e, às vezes, rio quando o trecho grifado não é, de fato, o mais importante da sentença. Hoje, em um desses momentos, fui surpreendido por uma visão extremamente atraente, beirando os cento e noventa centímetros, cabelos dourados, barba cerrada e um rosto marcado pelo conteúdo (talvez não) compreendido de um livro cujo título não consegui ler.
Tive a impressão de uma recíproca. Talvez fosse coisa da minha cabeça – esta que pouco compreende como as pessoas conseguem resetar as outras e os momentos em que viveram, mesmo que em pífios dias, em tão curto tempo. De qualquer forma, passei fitá-lo interruptamente, ao ponto de ver a última estação ser anunciada em um piscar de olhos. Ele saiu, eu saí. Subi as escadas um degrau atrás dele, sentindo um delicioso perfume, nada característico, um aroma que não reconheci. Sua blusa azul era um oceano que se espalhava altivo e orgulhoso por suas largas costas, mas ele se perdeu.
Logo vi que não iríamos subir a mesma rua também, mas refutei minha insegurança e pensei: “Talvez, quando eu virar à direita, ele vire à esquerda e, daí, nos encontraremos na mesma rua novamente”. Isso não aconteceu. Segui pelos poucos quarteirões que distanciam a estação da minha casa. Sorri. Sorri, não sei, mas sorri. Havia de existir uma vida relativamente brilhosa, mas tão escorregadia? E com o sorriso, ainda que tímido, abrindo-se pelo meu rosto, a Ele indaguei:
– Dá pra parar de passar lustra-móveis no meu destino?
________________________________________________
“Sou todo de incoerências. Vivo desolado, abatido, parado de energia, e admiro a vida, entanto como nunca ninguém a admirou”.
(Mário de Sá-Carneiro. A Confissão de Lúcio, p. 84)


23 Março 2012

A busca continua.


Sinto a minha vida um tanto cinematográfica. Uma série de clichês de filmes, cujo personagem, que no fim será feliz e casado, inicia a história se arrastando pelos lugares, quase que indo trabalhar de pijama. Hoje, por exemplo, me envolvi na leitura de um livro e quase perdi o ponto para descer. Isso, por alguma razão, destruiu minha manhã – uma analogia de que eu não sou responsável nem pela mínima ação que se possa atribuir a alguém.
Existem, porém, várias situações que não consigo conceber nos últimos tempos. Algo que ronda a minha cabeça repetidamente, um sopro no ouvido que diz: "você perdeu". Mais do que um aviso da derrota, um presságio das consecutivas que ainda virão. Se o ônibus está lotado, se começa a chover no horário de sair de casa, se desmarcam encontros ou se são grosseiros, se não dão vazão aos meus sentimentos – tudo, tudo –, se transforma em uma enorme bola de angústia.
O valor que as pessoas dão às coisas me deixa incompreendido, pois um diploma, dois - no meu caso - não me faz melhor ou mais feliz. O quanto eu consegui até aqui? Até onde eu cheguei? Tudo isso para ser recompensado no determinado dia do mês, para ver se valeu a pena o esforço.
Tenho baseado a minha vida em aspectos pré-determinados e, portanto, não tenho a tornado vida e pouco sei do aspecto real do que é viver, mas a busca continua...

18 Março 2012

Banho gelado.


Hoje falei sobre amadurecer. Ontem também. Não é uma sensação que chega todos os dias, principalmente nos finais de semana, quando o meu corpo clama pela embriaguez da mente.
A situação pela qual me coloquei é muito além da coragem de enfrentar, ainda com medo, aquilo e aquele que me faz estremecer na cadeira. Mais do que nunca, eu quis impressionar sem ser visto. Quis me manter calado para o olhar responder todas as possíveis perguntas: “Sim, sou eu”; “Sim, ainda não sarei de você”; “Sim, pode voltar, eu estou esperando”. E fui embora.
Amadurecer, agora, a meu ver, é mais do que tentar curar um amor não correspondido. É valorizá-lo, é saber esperar, é cuidar de um sentimento que é bonito e, por consequência, não merece e não deve ser exterminado como se nunca tivesse acontecido. Pois lá estava eu, por você, por mim. E ao ir embora, já no táxi, senti da testa escorrer um resquício do banho de realidade que eu mesmo me proporcionei. Seja lá qual seja a voltagem, eu estava quente, assim como a lembrança da primeira carona e do último adeus. 




Mesmo sendo errados os amantes, seus amores serão bons

13 Março 2012

Gota d'água.


Há muito São Paulo não me apetece, seja pelas perdas recentes, seja pela fadiga do caminho igual todos os dias, seja pela falta de novidade em uma cidade que, ao olhar externo, tanto se reinventa.
Tenho refutado minha vontade em assumir meus arrependimentos, porque tento amadurecer minhas decisões e não voltar para trás. São Paulo, que já é melancólica, virou o palco dessa tragicomédia que se tornou a minha vida: risos e gargalhadas que se encontram às saudades e falsas promessas de um novo tempo que vem.
E não há dentro de mim uma timidez no assumir, em dizer que não está tudo bem, não! Que eu preferia essa cidade fria a ter de confundir as repentinas lágrimas ao suor do calor insuportável, em meio a uma multidão pouco erudita pela pressa de chegar ao destino final. Talvez eu queira ir embora, dizer: "Bye, bye Brasil. A última ficha caiu". Ou, talvez, como a violeira, de mala e cuia, cair no Rio, ver Ipanema e seu cenário de cinema.
A verdade é que sou formado por este concreto ingrato, que pouco me devolve felicidade, mas que é rolante e acelera meu andar e meu progresso.



Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...

07 Março 2012

Enredo do meu samba.


Tenho grande apreço pelo Carnaval. Talvez seja uma herança hereditária, quando minha mãe, aos nove meses de gravidez, sambou na avenida com o corpo seminu, como gostava de enfatizar. Amanhã, quando meu samba completa 23 anos, percebo que sou feito de diversos sons, do chorinho ao repique, do samba-enredo ao samba-canção.

Quando enfim eu nasci, minha mãe embrulhou-me num manto
Me vestiu como se eu fosse assim uma espécie de santo
Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabaré
”.
“Minha História”, Chico Buarque (1970)

A vida é uma avenida, uma Sapucaí que Deus decide a dispersão, que sacoleja o destino no recuo da bateria. O Carnaval é uma analogia da vida, porque ao longo do desfile existem julgamentos, notas baixas, notas altas, pessoas torcendo por você, pessoas que trabalharam para você estar ali. Assim como alguns, infelizmente, querem ver o brilho da fantasia acabar, a alegoria emperrar, a cuíca desafinar. Assim é na vida, assim é no amor.

“Agora sei, desfilei sob aplausos da ilusão
E hoje tenho esse samba de amor, por comissão
Fim do carnaval, nas cinzas pude perceber
Na apuração perdi você”.
“Enredo do meu samba”, Dona Ivone Lara e Jorge Aragão

Difícil, porém não impossível, encarar mais um ano sem rememorar os anteriores. Uma série de mudanças foi dando forma à harmonia, em um dez absoluto em evolução. Mas perdi também: a mulher mais importante da minha vida e os alguns pelo qual investi. De qualquer forma, seja na avenida ou no bloco, sempre estarei de volta ao samba.

“Porém meu samba, o trunfo é seu
Pois quando de uma vez por todas eu me for
E o silêncio me abraçar
Você sambará sem mim”.
“De volta ao samba”, Chico Buarque (1993)

05 Fevereiro 2012

Maria Luiza, cheia de graça.


Minha mãe era uma pessoa que se esforçava. Às vezes sentava na minha cama e se punha a fazer milhares de perguntas, fingindo um interesse, querendo mostrar que cada palavra que saía da minha boca eram as mais valiosas do mundo. Um dos elogios que ela fazia, nestes momentos, era exaltar a qualidade da minha escrita – e é com ela que eu vou prestar a homenagem que, por vezes, achei que fosse antecipar e que infelizmente chegou.

Taurina, corinthiana, nascida no Brás e criada na Mooca – como gostava de enfatizar. Era uma mulher que se apegava a qualquer crença pela qual se beneficiasse. Seguiu todos os dogmas possíveis. Foi à igreja de joelhos, conversou com o pastor, tomou um passe, incorporou a cigana. Era bairrista também: de todos os amores, aventuras, desejos – todos, numa mínima exceção, eram mooquenses. Ela sempre dizia, cheia de orgulho: não moro em São Paulo, eu moro na Mooca! E ali, nos gloriosos títulos brasileiros de 1998 e 1999, lá estava ela para puxar o "Poropopó, Corinthians veio pra vencer".
Amou muito também. Com intensidade e diversidade. Minha mãe foi aquela que viveu tanto que os anos foram correndo de forma tão rápida que o fim chegou cedo: cinquenta e dois anos, de puro cigarrinho na mão, pigarro, palavrões, vida escancarada e a incansável vontade de ser compreendida. E eu, por criticá-la e talvez por ser igual ou pior, entendia tudo, em silêncio, desabando por dentro, querendo dizer: “Ó, controle suas emoções, eu to aqui”. E todos estavam. Os filhos, os pais, a nora, a vizinha. Maria Luiza se tornou uma luta pela qual todos batalharam.
Em alguns momentos, quando o pensamento corria pela minha mãe, eu temia não chorar em seu velório. Quando ele aconteceu, mal consegui falar. Foi como se todos os males tivessem sido esquecidos e a mãe que chegava orgulhosa da reunião de pais, segurando o boletim do caçula, tivesse encarnado em mim. A mãe que me esperava fazer as provas da escola técnica, em todas as milhares de tentativas; a que, com naturalidade, passou a falar comigo sobre a vida multicolorida, que me cobrava para ir aos lugares, conhecer minha realidade, minhas paixões.

Minha mãe ficará eternizada em mim porque não existiu melhor exemplo a ser seguido. Por ela – só por ela –, eu conquistei cada subida de degrau nessa vida que, a meu ver, não é nada fácil. Por ela, eu brigava por décimos na escola, para fazê-la feliz na reunião de pais, ter um motivo para se orgulhar. Por ela, eu comecei a trabalhar cedo, garantindo o mínimo possível de responsabilidade sobre meu sustento. Por ela, eu me tornei o filho graduado, o primeiro dos netos da Dona Anita, o que foi, por muitas vezes, deixado de lado, por ser filho dela, por ser o segundo filho sem pai, por ser o filho com trejeitos que não competiam aos convites litorâneos. E ela, por não ter conquistado nada e, mesmo assim, ter batido o pé por suas vontades, foi o exemplo que eu segui, por ir à contramão.
Hoje eu sei, apesar de recente, o que é sentir a saudade mais dolorosa, a dor mais pontiaguda, o respirar mais ofegante. Eu perdi, pelo menos fisicamente, meu maior desafio – mas a minha pimentinha, que cantava de forma doce “O Bêbado e o Equilibrista”, tinha de cessar o furacão que foi sua passagem por aqui.
Eu te amo.



"(...) sabe que o show de todo artista tem de continuar".

19 Janeiro 2012

Metade carimbada.


Eu me orgulho de tantas coisas sobre mim que beiro a prepotência - que é, para mim, um dos sentimentos mais feios de todos. Eu sei que conquistei muitas coisas com esforço próprio, mas não conquistei muitas coisas por culpa minha. Não por falta de aprendizado, porque eu tive muitas chances. Eu rodei em tantas ocasiões que o calejar deveria se transformar em cartilha, livro motivacional de prateleira de livraria - mas não. Eu insisto, persisto.
Existe, entretanto, o meio copo: metade cheio, metade vazio. Consigo perceber que nem tudo está errado. Eu nasci assim, sou aflorado, gosto de dizer: "sim, te amo"; "sim, quero estar com você"; "sim, sinto sua falta", mesmo sendo politicamente incorreto - ou conjugalmente.  Para mim, "o que é demais nunca é o bastante". A vontade em assumir todos e completos sentimentos me torna chato, piegas, irritante e qualquer sinônimo que remeta à repetição desenfreada  que conjugue o verbo querer.
Agora, aqui, com o bloco de notas aberto, estou deslizando os dedos pela tecla justamente para não responder o meu próprio e-mail, minha própria mensagem, não parecer grudento. Não tenho tino para virar as costas e ir embora sem arriscar a palavra, saber se houve uma desistência real, de verdade. Simplesmente, volto para ser carimbado novamente.
Volta.

12 Janeiro 2012

Imã.


Sabe quando o ano já está engrenando  em amplo aspecto, mas parte daquilo que você acreditou durante os fogos do anúncio do novo ano não aconteceram? Estou me sentindo assim.
Eu prometi a mim mesmo que não iria me relacionar com gente que não pode dar vazão aos meus sentimentos. E daí, numa questão de duas semanas, pouco mais de dez dias, eu estou quase implorando por um telefonema, um convite, um abraço - que seja, uma forma que contemple o meu sentimento não reconhecido. Claro que existe uma procura muito incisiva, com perfis quase iguais, que, ao mesmo tempo, não é uma procura, mas sim um karma, um destino transviado, um imã por pessoas cuja massa apodreceu, nascidos de 10 meses.
O que fazer com toda essa insegurança, essa vontade de largar tudo pelo caminho e me dar uma nova chance, a quem realmente vale a pena: a mim mesmo? O que fazer com você, assim logo de cara, ano de 2012? Eu quero uma resposta.
How can you offer me love like that?
I'm exhausted
Leave me alone

31 Dezembro 2011

Onzembro


Tem muita gente por aí reclamando de 2011, o que é de se respeitar, já que ninguém vive o mesmo ano que o vizinho. Eu, no geral, acredito que vivi doze meses sem grandes decepções – algumas, claro, normal, acontecem. Hoje, com a bermuda laranja e a camiseta pólo anunciada como uma forma de manter uma sintonia por meio da fibra do pano, irei para o meu vigésimo terceiro ano de vida, com esperanças de emancipação – em amplo aspecto.
Comecei o ano formado e desempregado – e, na assonância contínua, apaixonado. Por ironia do destino, um carioca que inicia e um carioca que finaliza. Foi neste ano que eu aprendi (ou talvez fui mais cauteloso) a esperar que as coisas seguissem o curso natural da vida. Subi os degraus que eu almejava durantes os fogos do ano anterior. Arrumei um emprego melhor, com mais perspectiva, com uma rotina alucinante. As mudanças, porém, não pararam por aí.
Ao chegar do expediente, abrir a porta de casa e ver que existe família e que ela, apesar de todos os entretantos, é indispensável. Mais do que isso: colocar um fim no rancor, reaprender a abraçar minha mãe e compreender a música que leva seu nome: debaixo dessa neve mora um coração.
Em 2011, eu amei muito, mas não peças novas. Ratifiquei minha paixão fraterna, entre amigos, com amores que se renovaram. Apostei na felicidade mais absurda, arrisquei os flertes mais improváveis e, até o momento, não sei no que tudo isso vai dar, mas é sentimento, é verdadeiro e segue firme.
O que eu espero de 2012? Que ele não chegue nunca! Que seja apenas uma folha de calendário, uma extensão do que foi meu ano, de muita aprendizagem e vivência intensa. Que exista onzembro, dozembro, trezembro e uma evolução que nunca estanque!

08 Dezembro 2011

Pronto, acabou.


Da Mooca, do Brás, da Bela Vista, dos Jardins, do Itaim. Espanhol, italiano, português, alemão, francês. Caucasiano, negro, oriental, índio. Milionário, rico, classe média, pobre, paupérrimo, miserável. Fundamental, Médio, Superior, Mestrado, Doutorado, Livre-docência. Engenheiro, administrador, designer, professor, mestre de obras, ajudante geral. Amigo, amiga, colega, conhecido, alguém aí. Samba, rock, samba-rock, jazz, bossa nova. Corinthians, Corinthians, Corinthians, Corinthians. São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador. Brasil, Argentina, Chile, Paraguai. América, Europa, Ásia, Oceania, África. Mercúrio, Vênus, Terra, Marte. Deus, Zeus, Jah.
Não adianta. Quando acontece, não existe pré-requisito. É, pronto, acabou.

27 Novembro 2011

Sem destinatário.


Estou pensando na beleza do papel, excluindo da cabeça todo o pensamento sustentável; criando a imagem de alguém que, de fato, importaria e se gabaria em ser o destinatário. As letras iriam atingir o mais alto índice de autonomia e se agrupariam de tal maneira a apresentar assim:

O fim de novembro se aproxima, tal como dezembro se prepara para a apresentação. Ainda moro em São Paulo. A paixão janeira pelo Rio de Janeiro não foi suficiente para tirar o crédito da fumaça-trânsito-amor-inexistente. Minha cidade é filha da putamente deliciosa. No mais, gosto da vida que ando levando. Diminuindo a diversidade social noturna e valorizando os storyboards no fim de semana. Isso torna tudo mais colorido se comparado ao meu novembro passado, quando a injustiça corporativa tirou de mim o que eu mais queria. Pois bem, estou muito melhor do que estaria: pleno e com plena certeza.
Ontem revi minhas melhores amigas. Faltaram algumas, mas a maioria estava lá. Poderia ser triste, mas é compensador ver que durante os anos juntos, elas foram as únicas que permaneceram. No meu jogo de xadrez, os alpinistas, fashionistas, imigrantes e de caráter intrigantes caíram, levando consigo suas premissas de vida. Tenho me sentindo à vontade com amigos do trabalho também. A cerveja da sexta-feira se tornou um ritual gostoso de participar, com pessoas que eu passei a admirar. Amizade não é estepe, mas tenho sentido que faz bem variar, rir de piadas diferentes, compreender dramas reais.
Ontem eu investi. Hoje eu desisti. Amanhã nunca se sabe, mas presumo que estarei disposto novamente, assim como estive nos últimos tempos com o casado, com o almofadinha, com o roteirista de comédia, com o filósofo, com escritor, com o marombado, com o filhinho-da-mamãe, com o hipócrita arquiteto hospitalar, com o fulano, cicrano e beltrano. De tão pequenos, pareciam poucos separadamente, mas agrupados mostram o quanto eu me entreguei por nada. Como se tivesse sido diferente em 2010, em 2009...
Com um livro do Caio Fernando Abreu aberto (“Cartas”), que é praticamente o meu “Gotas da Sabedoria”, veio-me à cabeça a melhor e mais verdadeira autossugestão dos últimos tempos: “Não se perca. Não se esqueça. Viver bem é a melhor vingança”.


Well of course I'd like to sit around and chat
But someone's listening in
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