19 Janeiro 2012

Metade carimbada.


Eu me orgulho de tantas coisas sobre mim que beiro a prepotência - que é, para mim, um dos sentimentos mais feios de todos. Eu sei que conquistei muitas coisas com esforço próprio, mas não conquistei muitas coisas por culpa minha. Não por falta de aprendizado, porque eu tive muitas chances. Eu rodei em tantas ocasiões que o calejar deveria se transformar em cartilha, livro motivacional de prateleira de livraria - mas não. Eu insisto, persisto.
Existe, entretanto, o meio copo: metade cheio, metade vazio. Consigo perceber que nem tudo está errado. Eu nasci assim, sou aflorado, gosto de dizer: "sim, te amo"; "sim, quero estar com você"; "sim, sinto sua falta", mesmo sendo politicamente incorreto - ou conjugalmente.  Para mim, "o que é demais nunca é o bastante". A vontade em assumir todos e completos sentimentos me torna chato, piegas, irritante e qualquer sinônimo que remeta à repetição desenfreada  que conjugue o verbo querer.
Agora, aqui, com o bloco de notas aberto, estou deslizando os dedos pela tecla justamente para não responder o meu próprio e-mail, minha própria mensagem, não parecer grudento. Não tenho tino para virar as costas e ir embora sem arriscar a palavra, saber se houve uma desistência real, de verdade. Simplesmente, volto para ser carimbado novamente.
Volta.

12 Janeiro 2012

Imã.


Sabe quando o ano já está engrenando  em amplo aspecto, mas parte daquilo que você acreditou durante os fogos do anúncio do novo ano não aconteceram? Estou me sentindo assim.
Eu prometi a mim mesmo que não iria me relacionar com gente que não pode dar vazão aos meus sentimentos. E daí, numa questão de duas semanas, pouco mais de dez dias, eu estou quase implorando por um telefonema, um convite, um abraço - que seja, uma forma que contemple o meu sentimento não reconhecido. Claro que existe uma procura muito incisiva, com perfis quase iguais, que, ao mesmo tempo, não é uma procura, mas sim um karma, um destino transviado, um imã por pessoas cuja massa apodreceu, nascidos de 10 meses.
O que fazer com toda essa insegurança, essa vontade de largar tudo pelo caminho e me dar uma nova chance, a quem realmente vale a pena: a mim mesmo? O que fazer com você, assim logo de cara, ano de 2012? Eu quero uma resposta.
How can you offer me love like that?
I'm exhausted
Leave me alone

31 Dezembro 2011

Onzembro


Tem muita gente por aí reclamando de 2011, o que é de se respeitar, já que ninguém vive o mesmo ano que o vizinho. Eu, no geral, acredito que vivi doze meses sem grandes decepções – algumas, claro, normal, acontecem. Hoje, com a bermuda laranja e a camiseta pólo anunciada como uma forma de manter uma sintonia por meio da fibra do pano, irei para o meu vigésimo terceiro ano de vida, com esperanças de emancipação – em amplo aspecto.
Comecei o ano formado e desempregado – e, na assonância contínua, apaixonado. Por ironia do destino, um carioca que inicia e um carioca que finaliza. Foi neste ano que eu aprendi (ou talvez fui mais cauteloso) a esperar que as coisas seguissem o curso natural da vida. Subi os degraus que eu almejava durantes os fogos do ano anterior. Arrumei um emprego melhor, com mais perspectiva, com uma rotina alucinante. As mudanças, porém, não pararam por aí.
Ao chegar do expediente, abrir a porta de casa e ver que existe família e que ela, apesar de todos os entretantos, é indispensável. Mais do que isso: colocar um fim no rancor, reaprender a abraçar minha mãe e compreender a música que leva seu nome: debaixo dessa neve mora um coração.
Em 2011, eu amei muito, mas não peças novas. Ratifiquei minha paixão fraterna, entre amigos, com amores que se renovaram. Apostei na felicidade mais absurda, arrisquei os flertes mais improváveis e, até o momento, não sei no que tudo isso vai dar, mas é sentimento, é verdadeiro e segue firme.
O que eu espero de 2012? Que ele não chegue nunca! Que seja apenas uma folha de calendário, uma extensão do que foi meu ano, de muita aprendizagem e vivência intensa. Que exista onzembro, dozembro, trezembro e uma evolução que nunca estanque!

08 Dezembro 2011

Pronto, acabou.


Da Mooca, do Brás, da Bela Vista, dos Jardins, do Itaim. Espanhol, italiano, português, alemão, francês. Caucasiano, negro, oriental, índio. Milionário, rico, classe média, pobre, paupérrimo, miserável. Fundamental, Médio, Superior, Mestrado, Doutorado, Livre-docência. Engenheiro, administrador, designer, professor, mestre de obras, ajudante geral. Amigo, amiga, colega, conhecido, alguém aí. Samba, rock, samba-rock, jazz, bossa nova. Corinthians, Corinthians, Corinthians, Corinthians. São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador. Brasil, Argentina, Chile, Paraguai. América, Europa, Ásia, Oceania, África. Mercúrio, Vênus, Terra, Marte. Deus, Zeus, Jah.
Não adianta. Quando acontece, não existe pré-requisito. É, pronto, acabou.

27 Novembro 2011

Sem destinatário.


Estou pensando na beleza do papel, excluindo da cabeça todo o pensamento sustentável; criando a imagem de alguém que, de fato, importaria e se gabaria em ser o destinatário. As letras iriam atingir o mais alto índice de autonomia e se agrupariam de tal maneira a apresentar assim:

O fim de novembro se aproxima, tal como dezembro se prepara para a apresentação. Ainda moro em São Paulo. A paixão janeira pelo Rio de Janeiro não foi suficiente para tirar o crédito da fumaça-trânsito-amor-inexistente. Minha cidade é filha da putamente deliciosa. No mais, gosto da vida que ando levando. Diminuindo a diversidade social noturna e valorizando os storyboards no fim de semana. Isso torna tudo mais colorido se comparado ao meu novembro passado, quando a injustiça corporativa tirou de mim o que eu mais queria. Pois bem, estou muito melhor do que estaria: pleno e com plena certeza.
Ontem revi minhas melhores amigas. Faltaram algumas, mas a maioria estava lá. Poderia ser triste, mas é compensador ver que durante os anos juntos, elas foram as únicas que permaneceram. No meu jogo de xadrez, os alpinistas, fashionistas, imigrantes e de caráter intrigantes caíram, levando consigo suas premissas de vida. Tenho me sentindo à vontade com amigos do trabalho também. A cerveja da sexta-feira se tornou um ritual gostoso de participar, com pessoas que eu passei a admirar. Amizade não é estepe, mas tenho sentido que faz bem variar, rir de piadas diferentes, compreender dramas reais.
Ontem eu investi. Hoje eu desisti. Amanhã nunca se sabe, mas presumo que estarei disposto novamente, assim como estive nos últimos tempos com o casado, com o almofadinha, com o roteirista de comédia, com o filósofo, com escritor, com o marombado, com o filhinho-da-mamãe, com o hipócrita arquiteto hospitalar, com o fulano, cicrano e beltrano. De tão pequenos, pareciam poucos separadamente, mas agrupados mostram o quanto eu me entreguei por nada. Como se tivesse sido diferente em 2010, em 2009...
Com um livro do Caio Fernando Abreu aberto (“Cartas”), que é praticamente o meu “Gotas da Sabedoria”, veio-me à cabeça a melhor e mais verdadeira autossugestão dos últimos tempos: “Não se perca. Não se esqueça. Viver bem é a melhor vingança”.


Well of course I'd like to sit around and chat
But someone's listening in

15 Novembro 2011

Apenas um homem.


No momento, sentado à frente do computador, vestindo duas partes de pijamas diferentes, estou feliz. Quebrad0, mas feliz. É um desafio, mas compensador sentir a felicidade em situações e momentos que não são, necessariamente, aquelas que você anseia durante todas as horas do dia - como, por exemplo, engatar tal sensação a dois.
Tenho consciência do meu bloqueio em iniciar um relacionamento com alguém. Sou chato. Não sei lidar com atitudes alheias que me envergonham, que fazem com que eu tenha receio de apresentar o mais novo candidato às amigas, à família. Vontade, entretanto, não falta. Porém, se não existe um incômodo atitudinal, cresce o medo de iniciar algo que não engrosse, em que a massa não cresça – mas isso, a meu ver, é normal.
Eu esqueci todas as vontades passadas. Eu excluí meu outubro, meu histórico, meus planos mais absurdos, minha lágrima que secou tão rápido quanto se iniciou. Man was born to love, though often he has sought. Like Icarus, to fly too high”, disse ontem, ao vivo, Mike Patton no inacreditável e inesquecível show do Faith no More. Pelas palavras dele, sob a chuva que caí ininterruptamente no interior paulista, eu já sei que tenho asas para procurar aquilo que me faz bem.




31 Outubro 2011

Fora do cubo.


Hoje o dia nasceu triste. Não porque o sol do domingo virou neblina; não porque o escaldante calor fez com que eu agasalhasse minhas feridas. Triste porque a frente fria trouxe a verdade pela qual eu temia: a falta de culhão em sustentar o que se sente - que, por mais imoral que seja, é sentimento e, por consequência, é bonito, é bonito e é bonito.
De pensar que eu, no alto dos meus vinte e dois anos, tão experiente neste quesito, deixe-me levar pela primeira cutucada extraconjugal, sendo que, depois de tantos passos em falso, deveria reprimir os desejos para que eles não se tornassem o que se tornaram: fortes e reais.
Eu sei. Ele sabe. Mas não existe lugar para mais de dois dentro do cubo. 




 
There's no smoke without fire, 
Baby, baby you're a liar

20 Outubro 2011

À terceira potência


Daí que a consciência bateu à porta e disse: “Olha, to saindo fora. O que você quer, o que você sente, as coisas que você anda programando, não necessitam da minha presença”. E se foi. Não muito tempo depois, sentindo o vazio de ter perdido a consciência, ouvi o barulho da porta. Era o destino.
“Não que eu acredite que você esteja fazendo a coisa errada, mas se envolver assim? Você quer que eu mexa os pauzinhos e faça tudo isso mudar?”. Eu, que balancei a cabeça, rejeitando a ideia do destino, não fui acatado. Não demorou muito para a consciência se arrepender e voltar, de mala e cuia, para dizer: “Eu te avisei, Roberto. Eu te avisei”.
Mas qual é o sentido de tudo isso? Portas e conselhos? Que se danem todos! Eu quero caminhar os mil e seiscentos e setenta quilômetros da felicidade, seja ela uma farsa, seja ela apenas uma curiosidade. A consciência é cigana e o destino pregador, mas eu sei. Ele sabe.

25 Setembro 2011

Devoção.


Eu sou devoto da Ortografia. Não sou erudito das Letras, mas começo a pensar que a escrita traz consigo um significado de caráter. Os tropeços conhecidos se encaixam à forma de quem não sabe se relacionar sem injetar pequenas doses de falsidade. O que eu pensava ser apenas uma lombada cognitiva, trata-se do léxico enaltecendo uma personalidade ambiciosa, tão suja quanto a escrita primária.
Eu sou devoto da Sintaxe. O sujeito é simples, mas nada como uma boa lábia para conseguir o que quer. Enaltecer os predicados de alguém que lhe dê sustento e passe livre para viver vidas conjugadas, além de exercer uma considerável transitividade de personalidade: direto, indireto – às vezes, os dois.
Eu sou devoto da Morfologia e deixo, além do meu vulto – que foi a última coisa vista –, um adjetivo: deprimente.

23 Setembro 2011

Trifásico.


Se fosse somente a dor do bom dia. Se as tardes fossem felizes como nos dias úteis. Se o buraco da fechadura fosse mais discreto do que deveria ser. Eu não comi o brigadeiro da discórdia, não aceitei a foto do parque e os roteiros de comédia, não aguentei a pressão do canalha favorito. Renunciei e, a partir de agora, irei assumir o peso do “nunca mais”.
Eu só quero – e preciso – de um suspiro, algo que desobstrua minhas vias aéreas, desmistifique a energia atravessada e traga a paz que venho pedindo há tempos. 




"O que está acontecendo? Eu estava em paz quando você chegou"

28 Agosto 2011

O valor da comanda.

Tem gente que sabe lidar, mas eu não. Consigo transformar a diversão em uma caixa sem furos de respiração, rodeado por insetos, dos mais grotescos e asquerosos. Tão difícil acreditar que o entretenimento vira um aglomerado de pessoas que você, definitivamente, não precisa ver mais. Gente que não faz falta e que, no entrelaço de coisas negativas, cria novos aglomerados, amizades que brotam e murcham a minha felicidade.

Hoje confirmei o revés do que me faz saudável. Olhos famintos por rancor, por mãos que se encostam e, ao mesmo tempo, dilaceram os resquícios do meu bom humor. Como é possível alguém se nutrir da angústia, em meio ao neon, para confirmar o que já é certo? O balançar de corpos que, no compasso da música, trova com a falta de compreensão com a dor que está próxima – na roda ao lado.

Venho traçando um plano de vida que engloba uma série de ações. Quero adquirir um bem e, para isso, tenho tentado poupar os meus trocados. Entretanto, o valor da comanda não é só financeiro quando se percebe que os prejuízos cardíacos são muitos maiores, por observar o lugar de cima.

22 Agosto 2011

Limpeza.

Eu queria tomar banho com esponja de aço, ensaboando a pele suja pela legião de infelizes que um dia a tocaram. Receber do chuveiro, ao invés de água, ácido – queimando qualquer vestígio das mãos sujas que, sob o meu aval, encostaram-se a mim. Gostaria, ainda, que a água do filtro fosse creolina e desinfetasse o gosto dos beijos infestados de falsas promessas e palavras de conveniência.

A vocês – nem todos, mas ainda assim alguns –, que vieram e que cogitaram, a limpeza que me destrói e me renova. A eficácia do enxaguante vital.




Why suffer back in the game?

16 Agosto 2011

Fenda, fisga, frincha.

Eu nunca vou entender as pessoas. Omissas, inseguras. E eu, por também ser pessoa, talvez ainda muito pior do que as que eu corriqueiramente aponto, tento compreender se tenho par com as coisas que me rodeiam neste mundo.

Hoje me falaram sobre paixão. Começou com olhares, terminou em namoro – mas entre estes períodos, há frestas. Vejo, cada vez mais, que os relacionamentos estão tomando um rumo empreendedor, quase um vínculo empregatício. É quase aquele momento em que, desempregado, a pessoa passa a enviar currículos para uma série de empresas. No fim, espera a com maior ordenado se manifestar para aceitar a proposta. Namoros são assim também. Os solteiros nutrem o maior número de corações que conseguem e, por mais que já estejam praticamente entrelaçados a alguém, omitem tudo, de todos, até firmar, finalmente, uma relação.

É duro afirmar e consentir este tipo de atitude quando, em algum dia da minha adolescência, eu cheguei a defender um sentimento – e igualdade, respeito, tolerância, união. A vida – ou, resumidamente, os últimos cinco anos dela –, me mostrou a fria realidade da glande que habita o sistema cardiovascular de algumas pessoas.

11 Agosto 2011

Existência deserta.

"(...) De resto, se às vezes posso sofrer por não possuir certas coisas que ainda não conheço inteiramente, a verdade é que, descendo-me melhor, logo averiguo isto: Meu Deus, se as tivera, ainda maior seria a minha dor, o meu tédio." (Mário de Sá-Carneiro)


Comecei a semana dopado de uma injeção e me senti flutuando sobre a selva de pedra, até despencar sobre o colchão e acordar no começo da noite, ainda zonzo. Por esses dias, folheei o caderno do convênio médico. Eu, que nunca acreditei em saúde mental, por achar uma grande picaretagem de gente que aproveita da carência alheia, fui passando os dedos pelos terapeutas listados.

Disseram que, vendo pelo lado bom, eu não sou tão lunático, pois reconheço o problema – só não sei como resolvê-lo. Consigo desmontar a felicidade de um sorriso só em pensar na possibilidade daquilo que já aconteceu. Dói, de uma forma gritante, sentir o zunido da conversa que eu estabeleço na cabeça entre as duas partes – o traidor e o traidor -, ambos muito à vontade em se deliciar a si próprios, rindo do meu ciúme negritado.

Não lembro, ao certo, quando me tornei dependente da minha dependência – que acarreta, inclusive, na repetição de atos e palavras; que atrapalha a minha concentração em todos os momentos em que é remetida. Acho degradante falar em direitos, quando, na verdade, não exerço nenhum – nenhum, sobre ninguém. Mas sei que não quero mais do que um egoísmo acatado, sem seguir a regra alheia, somente mantendo a beleza dos meus momentos intacta.

25 Julho 2011

Divã.

O letrado que fazia revisão não soube escrever. O pedagogo que dava aulas não tinha didática. O engenheiro que chefiava uma construtora não sabe somar. O advogado que defendia a ética não tem argumentos. A sambista da agremiação não tem gingado. O produtor de televisão não consegue inovar. O estilista da grife não sabe costurar. O técnico em informática não consegue instalar um software. A bailarina da companhia não abre spaccata. O publicitário da agência tenta descobrir o que é um brainstorm. O economista do banco está com o nome sujo. O administrador de empresas faliu todas as empresas que herdou. O motorista de ônibus pediu ajuda para o passageiro por desconhecer o trajeto. O guia de turismo chamou a Austrália de país europeu. O disque-jóquei descobriu há pouco o que é a capella. O nutricionista almoça todos os dias na rede de fast food. A cantora do concerto não sabe distinguir Dó de Ré. O mágico serrou uma mulher e foi processado pela família da vítima. A telefonista atendeu a ligação falando o nome da empresa concorrente. O desenhista profissional não consegue distinguir um traço de outro. O psicólogo, que estuda, entre outras coisas, a saúde mental das pessoas, pouco sabe como lidar com seres humanos, que têm as sensações mais transparentes do mundo.

Estamos feitos.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...